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Um exemplo: Uma canção pop comum com quatro acordes, compasso 4×4. Guitarra, baixo, bateria e ali no fundo um teclado.

Este toca apenas uma nota contínua, não produz ritmo, melodia, nem dinâmica. Estas questões são trazidas pelos outros instrumentos, o contexto que acaba criando a ilusão de dinâmica ao som do teclado.

Este som pode ser descrito como uma linha, a cor varia dependendo da nota que está sendo tocada, é como se este som passasse por trás dos outros instrumentos que, se imaginados graficamente, produzem linhas mais complexas, formam ondas e triângulos de alturas, dimensões e direções diversas. O teclado cria uma espécie de detalhe, que não faz total diferença, mas que fica bacana ali naquele contexto musical, deixa a música “mais gorda”e preenchida. Seu papel nesta canção hipotética é completamente diferente de (imaginemos) uma outra, onde temos somente este som de linha, bem mais alto com acompanhamento de outros teclados, fazendo também variações lentas, com poucas notas e sem compasso definido. Temos uma diferente experienciação, mesmo utilizando o mesmo elemento. Temos uma música composta com linhas.

Ouve-se muito, no mundo “real”, que ARTE CONCEITUAL é inútil, um embuste criado por pessoas ricas para ter o que fazer quando não são hábeis pra tocar a multinacional do pai ou para alisar seus egos, já que nunca fizeram o esforço necessário para aprender a desenhar, pintar ou esculpir. Se existe uma parcela que faz exatamente isso? Já perdi muito tempo da vida me preocupando com o que é verdadeiro ou falso. Xingando, porque um rico já ganha tudo fácil e não tem a vivência de ‘se foder’ pra poder criar uma obra de arte digna. (sic) A verdade é que me forcei a mudar, porque percebi que a idéia de arte, pra mim, estava perdendo (demais) a pureza e que se continuasse nesse caminho, cedo ou tarde eu largaria tudo pra estudar Administração. Ganhar dinheiro com arte nunca poderia ser o maior objetivo da vida. Mas qual seria então? Juntar dinheiro e poder fugir nas férias e comer comidas caras e receber massagem num hotel na praia? Talvez a maior parte das pessoas possam acabar me vendo como romântico demais, ou esotérico, algo do tipo. O lance é que vejo a arte como uma representação espiritual, muito mais pura, na minha opinião, que a religião, a qual, penso eu inclusive, que por causa dos dogmas e rituais serviu para que perdêssemos a real noção do que é a espiritualidade que está contida na poesia.

Mas peraí, que papo bicho grilo é esse de poesia e onde você quer chegar a partir do que foi dito lá em cima, de teclado e etc? Enfim, vou explicar o que é a poesia na minha visão, deixando claro que a própria busca por uma acepção é praticamente uma metalinguagem de que o que não pode ser explicado racionalmente só pode ser percebido através dela, da poesia, de uma maneira menos inteligível, vamos fazer uma analogia com o sexo e o amor: quanto menos você tentar explicar, mais bonito será.

Sendo assim, tendo minha vivências e opiniões e sentindo vontade de expressá-las, só obterei sucesso NA ARTE se trabalhar minha mente de modo que eu consiga escrever, desenhar algo que soe um pouco (ou muito) abstrato, que desafie minha mente e a do leitor/espectador. Se eu gosto de amarelo e faço um quadrinhos “viva o amarelo, amarelo é a cor mais linda, o verde é feio, fora verde” estou sendo altamente didático e a não ser que esse quadrinhos se direcione pra retardados ou crianças muito pequenas, cuja mente começou a fazer relações agora, será uma obra de arte inútil. Estou sendo propositadamente categórico, porque creio que mesmo nas obras onde o sentido se faz claro ou/e político, pode existir esse afastamento poético, o que inunda a obra de energia vital, a faz viva além da sua causa (neste caso Guernica ganha milhares de outros sentidos além da crítica). É isso que faz a poesia, descrever o que não pode ser descrito através, não de um caminho iluminado, e sim através do escuro e da iluminação interna. Gerlach, quando o conheci comparou minha hq DOIS com algum aspecto dos KOANS. Segue a descrição do Wikipedia: Um koan é uma narrativa, diálogo, questão ou afirmação no budismo zen que contém aspectos que são inacessíveis à razão Desta forma, o koan tem, como objetivo, propiciar a iluminação espiritual do praticante através da interrupção do seu fluxo de pensamentos. Um koan famoso é: “Batendo as duas mãos uma na outra, temos um som; qual é o som de uma mão somente?” (tradição oral, atribuída a Hakuin Ekaku, 1686-1769).

 Ok, Espero que essa noção nublada tenha iluminado sua mente para voltarmos à idéia do teclado e da arte conceitual. O que escrevo a seguir, nada mais é, que minha noção pessoal também, a partir de vivência e leituras e experiências e discussões, do que é a arte conceitual. Se você é um açademicista que precisa que eu justifique com referências claras de outros autores mais inteligentes, talvez mais claros (talvez exatamente o oposto) que eu, deixe pra lá. Sou apenas um ser vivo matutando aqui, não um político ou cientista.

A arte sempre foi um mistério para o ser humano: por que fazemos? Por que apreciamos? Pra que serve? O que tiramos disso? Fato é que a maioria do seres humanos tem um apreço indelével pela arte figurativa, especialmente a figura humana. Se for altamente realista será admirada pelo labor de ser produzida, se for mais estilizada (pense talvez num grafite) será admirada pelo estilo próprio DESDE QUE retrate um rosto. Pode ter manchas, pode ter abstrações, mas embaixo disso, É BOM que tenha um rosto. Identificação? Sei lá, qual o motivo que tem nossa percepção pra isso? Algo “útil” ou só nosso ego em formato de inconsciente coletivo gritando? Não adianta chutar, essa é uma boa pra cientistas tentarem responder.

Fato é que todo desenho é criado a partir de elementos básicos: ponto (ou mancha) que vira linha (ou forma) e que se combina com outros elementos pra criar “algo”. Signos dotados de significação são avaliados a partir de crenças. Dito isso aparentemente, cada vez mais, ironia tem sido entendida como discurso. Zeitgeist?

A arte conceitual, como a conhecemos (porque se analisarmos, sempre esteve aí), começou lá com o cachimbo do Magritte, com a privada do Duchamp a nos falar do mundo microscópico que se esconde atrás da nossa impressão das coisas. que está sempre contaminada pela cultura, opinião e percepção (se é que essa última não é simplesmente a mistura dessas duas coisas).

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Eu tive que fazer um esforço no começo pra compreender qual o “uso” de um quadrado preto do Malevich. Hoje em dia é muito claro, e ao mesmo tempo difícil de explicar. Uma idéia mínima das coisas, sem culpa e sem motivo claro. Como olhar para algo que está no mundo e que acostumamos a achar normal, pense na loucura que é a existência das árvores… dos insetos… o céu sobre tudo, o jeito que o mundo se “organizou” em sua história. Existe um erro grosseiro em pensar que essas modalidades mais abstrativas da arte vieram para “tomar o lugar” da arte figurativa.

Basta dizer que os teclados tocando uma nota tem uma importância muito maior pra mim hoje em dia. Não atrás da banda, somente, lavando a louça. Mas como chefe em um jantar minimalista, onde o prato principal só será entendido se houver um esforço em concentrar a percepção do meu paladar e se eu não jogar ketchup e mostarda por cima de tudo.

Feira Plana 2013

Feira Plana 2013

Grosso modo não existe uma característica determinante para o que seja ‘quadrinho autoral’. Se eu chegasse a uma conclusão definitiva, certamente veria muitos dos meus colegas discordando de mim. Eu poderia tentar simplificar dizendo que é ‘quadrinho produzido por um autor, independente de escolhas mercadológicas‘ ou quem sabe ‘quadrinhos produzidos de forma independente, de tiragem muito mais baixa que a usual das editoras ‘oficiais”, ainda assim acho que este supunhetismo em determinar uma área exata só levaria o artigo a limitar o assunto, certo? Trabalho sujo por natureza. Eu sou suspeito ao falar sobre quadrinhos, leio (ou olho) e produzo os meus próprios desde antes de saber ler. Decidi há pouco tempo que este seria o meu meio de trabalho artístico (não confundir com ‘meio de ganhar dinheiro’). Mesmo me interessando por outros tipos de arte, decidi que é este que quero dedicar tempo e estudo.

Dentro da minha visão de arte, o quadrinho autoral, talvez por ser mais recente, é acidentalmente despretensioso, e ainda assim mantém um potencial para criar deslumbramento e reflexão tal qual outras modalidades da arte, que por vezes não tem tamanho contato com a cultura popular sem soar folclórico e/ou datado (isso não é necessariamente uma crítica, defendo a idéia do espaço para tudo e todos). E já disse antes, gosto da coisa do quadrinho ser um meio por si só, não uma sub-literatura ou um sub-filme.

Dito isso, vale a pena frisar que este texto não necessariamente reflete a opinião ou gostos dos autores com os quais fiz uma entrevista (logo abaixo). Este é um artigo autoral, no qual uso minha vivência e suposta percepção para sugerir um caminho a quem possa interessar. Ele não é definitivo nem pra mim mesmo. Mas me ajuda a pensar. Talvez eu seja, no fim, um cara que gosta de listas.

***

Será que todo quadrinho autoral pode ser chamado de “alternativo” por sua natureza paralela à mídia oficial? (que é muito mais comentada, divulgada, pesquisada, lembrada como referência quando se fala em quadrinho, etc). Talvez alguns amigos estejam certos, e a definição pudesse ser a morte da Esfinge. Tipo “Entretanto, foda-se”.

Não sei se foi Crumb ou alguém da ZAP, mas eu vejo nuances no Winsor McCay, no Charles Schultz, no Chuck Jones e no Will Eisner (óbvio) etc que são anteriores mas já tinham algo diferente. Trabalhos denso e sinceros, por acaso através de um meio de reprodução rápida, linguagem popular e de alcance global e teoricamente simplistas (mas daí rende outra discussão qd se pensa a complexa e propositalmente sutil rede de relações que o minimalismo cria com a arte, dita clássica (no caso dos alternativos, claro, o alcance tornou-se global numa esfera maior de tempo).

Daí tem o Dan O’Neill e os Dadas, Beatniks, e o Daniel Clowes, e o CF e o Mat Brinkman, e o Charles Burns, a Animal, a Chiclete com Banana, Fabio Zimbres, Jaca, Rafa Silveira e o Almanaque Entropya e daí aquele monte de editorazinha bacana tipo a Highwater Books cheia de doidão que, se você procurar no Google vai achar muito mais sobre seus projetos musicais vanguarda pé-sujo concreto industrial psicodélico e por aí que quadrinhos. Mas afinal quem lê quadrinhos?

No meio de eventos como Gibicon (CWB), Comicon (RJ), Fiq (BH), Quantacon (SP) sempre me parece que a barraquinha dos independentes soa um pouco deslocada. Como se fossem invasores, mesmo que com as melhores intenções. Será que não viemos todos do mesmo saco? Não eram todos moleques que um dia liam os quadrinhos da Abril e da Globo? Eventos como a Feira Plana (MIS-SP) e a Tijuana (Galeria Vermelha-SP) se mostraram situacões inusitadas.

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Me identifico, pessoalmente com alguns autores/editoras/selos e resolvi fazer uma entrevista com eles. Fazem parte deste grupo a SAMBA, a BELELÉU, a PREGO, GOLDEN SHOWER, VIBE TRONXA e outros distribuidores ainda mais independentes como PEDRO FRANZ, ANDRÉ VALENTE, ODYR. E  o “patrão” da casa, ídolo e organizador da visionária coletânea MIL: RAFA COUTINHO com seu selo/loja CACHALOTE/NARVAL, ele justamente filho do Homem é a ponte entre a geração Grampá/Moon e Bá e esta nova safra. Difícil definir todos estes… ‘editora’, ‘revista’ ou ‘selo? Não sei direito o que são, talvez eles mesmos não saibam, talvez não importe.

Bem, e que fique claro que estes NÃO são os únicos quadrinistas independentes do Brasil, esta foi minha eleção com base na afinidade. Eu sabia que partindo deste ponto seriam citados vários outros autores que eu admiro. Infelizmente alguns dos citados acima não conseguiram responder essa entrevista, mas eles estão muito bem representados…….  Aproveito aliás pra lançar oficialmente meu selo aqui, ROAX e responder minhas próprias perguntas.

O mais bonito pra mim, que eu queria enfatizar com esse texto, é o fato deste “grupo” de pessoas morar em estados diferentes e ter tido algum tipo de vivência semelhante, que levou a nos conhecermos e admirarmos. Pontos distantes tal qual estrelas formando constelações, salvaguardadas quaisquer ridículas pretensões relacionadas ao conceito de estrelismos. Mate todos os rockstares etc.

Eu me enrolei pra montar essa entrevista, DESCULPA, tinha enviado pra eles no final de 2012, então fiz algumas retificações quando necessário:

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COMO COMEÇOU ESSE LANCE DE PUBLICAÇÕES INDEPENDENTES PRA VOCÊ(S)? ATÉ ONDE FOI ATÉ AGORA?

Coutinho (Cachalote/Narval): Começou no começo mesmo, nas minha publicações de quadrinhos. Participei de uma revista chamada Sociedade Radioativa, aqui de Sampa, com o Caeto, Ulisses Garcez, Daniel Gisé, entre outros. Eles já tocavam a revista há uns anos, e comecei como colaborador. Aí passei pra frente editorial, e peguei gosto. Fazer lançamentos, cuidar da impressão, divulgar, vender. É muito gratificante pra quem gosta.

Stêvz (Beleléu): A Beleléu começou como uma revista em 2009. Tiramos uma grana do nosso próprio bolso para bancar a impressão, mas não tínhamos maiores pretensões além de fazer uma revista foda. O nome agradou, o conteúdo também. Fomos tocando um blog com atualizações inconstantes e, como apareceram alguns trabalhos e a vida seguiu, acabamos adiando o lançamento do segundo número. No fim de 2011, eu havia terminado o livro Aparecida Blues, com roteiro do Biu, e pareceu lógico lançá-lo pela Beleléu, transformando a empreitada num selo. Este ano estávamos mais focados nesse aspecto de estruturação, para conseguir manter a coisa funcionando enquanto selo editorial, publicando outros títulos e começando um catálogo próprio. No momento, temos 5 livros publicados, e outros engatilhados para o começo do ano.

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Acioli, Berger e Yida (Gibi Gibi): Nós queriamos fazer um zine já fazia um tempo, mas no meio da correria nunca realmente começavamos. Alguns de nós já tinhamos histórias que não haviam sido publicadas, então resolvemos fazer a nossa revista, por conta própria, e chamar os caras que a gente queria por na roda.
Terminamos a nossa primeira edição em outubro de 2011 bem na epoca da RioComicon e definimos um deadline que nos permitisse divulgar fora de SP. Imprimimos 200 exemplares botamos nas malas e pá!
Rolou uma indicação pro prêmio HQMix de melhor zine coletiva.
A segunda edição virá tecnicamente bem mais resolvida, preenchida e talecoisa. (A segunda edição foi lançada na FEIRA PLANA em SP, e está mesmo muito além da primeira edição)

DW (Roax): Fiz zines na adolescência, mas acho que a volta do desejo com certeza tem a ver com ver esse povo todo produzindo.

Alex (Prego): Comecei com um pequeno selo/distro voltado pra bandas de hardcore/powerviolence no início dos anos 2000. A partir daí comecei a fazer cartazes e algumas artes para bandas me envolvendo mais com o lance de artes gráficas e fanzines. Diagramei e montei alguns zines de amigos e depois resolvi lançar a Prego em 2007, durante o curso de artes visuais. De lá pra cá organizei diversos eventos de lançamento, viajei pra muitas cidades no Brasil (algumas no exterior também), conheci muita gente boa e inspiradora.

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Cyn(Golden Shower): Começou há alguns anos quando comecei a fazer quadrinhos e fiz um blog. Eu esperava que esse blog me desse alguma sensação de ah, agora sou cartunista! Mas não deu… até por que eu sou péssima mantedora de blogs.  Então achei que se eu fizesse uma revista impressa e meus quadrinhos saíssem em papel de verdade que eu pudesse segurar na mão, eu me sentiria uma cartunista… não funcionou, hehehe, mas através dessa revista conheci vários cartunistas brilhantes, o que faziam, quem são então valeu muito a pena. Até agora publiquei duas edições da Golden Shower e uma da Bananas, que fiz com a Chiquinha. Eu fiquei meio de saco cheio da Golden e de ficar vendo quadrinhos (muitas vezes horríveis) sobre sexo então agora ainda estou pensando no que vou querer fazer… mas acho que alguma coisa só minha e não coletiva.

Gerlach (Vibe Tronxa): Começou com a ideia de dar uma cara mais ou menos unificada pros meus lançamentos solo, e de me forçar a pensar como um editor, criar um plano de divulgação e vendas, já que essa parece ser a opção mais sensível e sensata para os autores no momento. Até agora foram lançados uns poucos trabalhos (impressos profissionalmente ou xerocados), e montei uma página no Facebook para o selo, com o intuito de centralizar a divulgação e formalizar o fato de que é algo que existe e demanda um clique de quem quer que seja para obter mais informações sobre. 

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ONDE FICA SEU SELO/EDITORA? ALIÁS, O QUE É SEU NÚCLEO (RESPONDA ESSA ÚLTIMA SE ACHAR QUE VALE A PENA).

Gibi Gibi: Dentro do cu de um mendigo.

Gibi Gibi #2

Gibi Gibi #2

Cyn (Golden Shower): A base do meu selo é a minha bunda e onde ela está sentada no momento, hehehe. Já fiz revistas com pessoas exclusivamente pela internet ou indo até Sana Teresa com meu laptop pra trabalhar com meu amigo que diagramador. Mas eu trabalho na Toscographics, talvez lá seja a base então.

Alex (Prego): Vila Velha – ES. É aqui que temos um estúdio (Prego Estúdio) e uma loja (Prego – Espaço de Arte). Divido as atividades com meu amigo Guido Imbroisi, que publica na Prego desde o primeiro número. No estúdio fazemos a parte de criação e também a parte burocrática. Na loja vendemos materiais e fazemos eventos/exposições.

Gerlach (Vibe Tronxa): A Vibe Tronxa no momento é sediada em São Leopoldo – RS, minha cidade natal e onde atualmente resido. Tenho contato esporádico com outros quadrinistas da região e alguns amigos que lidam com outros campos de expressão artística, mas no geral o ‘núcleo’ sou eu mesmo, com a participação eventual e preciosa de co-conspiradores em aspectos sobretudo logísticos na produção dos gibis.

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DW (Roax): Sou de Curitiba, mas moro há 4 anos em SP, agora pertinho do estúdio do Rafa.

Coutinho (Cachalote/Narval): Fica na Pompéia, em São Paulo. Somos um grande estúdio com muitos artistas que dividem. Uma das salas é alugada pela Narval, que é basicamente composta de duas pessoas, eu e o André Lima, meu parceiro. Aí temos colaboradores em outros lugares. A Vanessa Lima que diagrama e fecha os arquivos de tudo que a gente faz, por exemplo, que trabalha de casa, ou o Daniel que cuida do site, o Gabriel Gueiros, que dá uma baita mão em videos promocionais.

Stêvz (Beleléu): Temos uma sala nos estúdios da gloriosa Toscographics, em Copacabana, que já está ficando pequena para tantas caixas de livros. Além de nós mesmos, acaba havendo uma interação com a Tosco e seus frequentadores. O livro do Pablo Carranza acho que acabou existindo por causa disso, por estarmos ali perto, nos vermos sempre. Sempre acaba sobrando algum trabalho também, para pagar as contas.

Valente (Fabio Zines):

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QUE AUTORES PUBLICAM/PUBLICARAM/VÃO PUBLICAR COM VOCÊ(S)?

Cyn (Golden Shower): Essa lista é grande, heim? Ah, sim, pelo meu SELO! Ah, bom, dentro da coletânea da Golden, muitos, mas na verdade eu não tenho um selo que nem a Beleléu ou a Samba, né?

Coutinho (Cachalote/Narval): A lista é grande, porque trabalhamos com projetos meio coletivos. Gabriel Góes, Daniel Gisé, DW, Mateus Acioli, Heitor Yida, Eduardo Medeiros, Diego Gerlach, André Kitagawa, Pedro Franz, Tiago El Cerdo, Rafael Sica, Berliac, Marcelo Costa… tô esquecendo de gente, mas vendemos algumas coisas de outros também, grupos parceiros, como a Beleléu do Rio de Janeiro, posters do Grampá, as revistas do Amilcar. Esse ano têm mais uma MIL (projeto de histórias mudas) do Laerte, Luisa Doria e Rafael Sica, além de algo com o Magenta King, uma Gazzara (HQs em formato poster A2) do Magno Costa e outros tantos.

Alex (Prego): A lista é grande, já deve estar beirando uns 100 autores desde a primeira Prego. Mas a tendência é diminuir o número de colaboradores e aumentar o número de publicações diferentes.

Stêvz (Beleléu): Muita gente, se considerarmos que dois dos nossos livros são publicações coletivas (Monstros e Calendário Pindura). Gostamos da idéia de publicar outros autores, além de nós mesmos. Tem muita coisa incrível sendo feita por aí, e nem tudo cabe nas propostas das editoras tradicionais. Cada vez mais as pessoas têm nos procurado também, mas ainda somos um empreendimento muito pequeno e humilde para corresponder a algumas dessas expectativas. Por isso, fazemos as coisas no nosso próprio tempo (e podemos nos dar a esse luxo, por enquanto).

DW (Roax): Bom, é cedo pra dizer, por hora só eu mesmo. Mas tenho em mente uma coletânea só com garotas.

Gibi Gibi: André Berger, Vandão Miranda, Diego Gerlach, Diogo Poelzig, MEDO, Bruno Di Chico, Michael Deforge, André Valente, Sam Alden, Mou, mais virão… Fora o Rob Liefield que estamos negociando desde a primeira edição.

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Gerlach (Vibe Tronxa): Até o momento foram publicadas só HQs minhas, mas a ideia é publicar antologias, colaborações e mesmo parcerias de publicação, onde eu atue apenas como editor/curador/facilitador para trabalhos de outros quadrinistas.

Valente (Fabio Zines):

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FALA SOBRE ESSE LANCE DE UMA ESPÉCIE DE “CENA”. A GALERA, CADA UM DE UM ESTADO, SE ENCONTRA NOS EVENTOS: IDÉIAS, PAPOS MIL, AVENTURAS NA MADRUGADA…

Coutinho (Cachalote/Narval): Existe mesmo. São amigos, gente que conversa e mesma língua criativa, têm gostos similares, um tipo de filosofia de trabalho mais independente mesmo, gosta de se alto publicar. Nos encontramos de vez em quando, e é sempre bom, é como encontrar amigos de uma fraternidade escusa. Quadrinhos é um troço bem solitário e exigente, é bom encontrar gente que divide isso, dá a sensação de fazer parte de algo maior mesmo. Sem contar que são caras incríveis, cada um do seu jeito.

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 Stêvz (Beleléu): Sim, existe uma cena, e ela é relativamente pequena aqui no Rio. Vemos sempre as mesmas pessoas, na sua maioria autores, mas há entusiastas que acompanham os lançamentos e a produção local. A cena de zines parece ter voltado com força, de publicações realmente artesanais. Na verdade, mesmo sendo pequena, não conseguimos acompanhar tudo.

Gerlach (Vibe Tronxa): Percebo um número sempre crescente de autores de HQs com ideias mais ou menos consistentes entre si, o que gera uma admiração mútua, um senso de competição saudável, e uma teia de contatos e facilitações informais. A ampla penetração da internet hoje é de caráter decisivo para essa cena, que é necessariamente descentralizada, considerando as dimensões continentais do Brasil (em conjunção com o público leitor relativamente escasso para esse tipo de trabalho). Com uma divulgação integrada e algumas ideias em comum perpassando diferentes moldes de publicação e diferentes vertentes do quadrinho nacional, a tendência é que, através da elevação contínua do nível dessas publicações, a visibilidade e o público para as mesmas cresça. Nas convenções, esse pessoal costuma dividir stands e apresentar os trabalhos uns dos outros para o público. Além de botar o papo em dia e tramar a revolução, é claro.

Cyn (Golden Shower): Eu não fui nos últimos eventos, ando meio reclusa. Cartunistas são esquisitos, são pessoas que não tem o tipo de competição ou ego que você vê em outras “cenas”, (ou pelo menos não eram) e geralmente têm vários interesses diferentes então misturam-se os temas meio punheta do próprio ofício com livros, música, games (urgh), filmes e outras formas de arte mais “nobres”.

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 Tiago (Beleléu): Cresceu muito esta cena dos independentes, dos zines, das publicações menores. Dá para ver e bem claro, estes dois caminhos que a produção no Brasil esta tomando. O das editoras e os independentes. Além dos grandes festivais que cresceram bastante, esta surgindo as pequenas feirinhas e lançamentos. E constantes. E além de ser o evento para lançar as novidades, para apresentar ao público, acaba sendo a forma de reunir esta galera que vem produzindo. Estamos sempre em contato uns com os outros, em trocas de emails e em nossa página dos Quadrinhos Autorais no Facebook.

DW (Roax): São tantas emoções, aqueles showzinhos pra 10 pessoas em BH… curti muito também o movimento em Curitiba na última Gibicon, de onde veio o Tiras de Merda…

Gibi Gibi: Acontece que o pessoal que se identifica vai atrás, vasculha na internet, vai nas lojas especializadas, e por ela os lançamentos, festinhas, aventuras e guere-gueres são combinados e daí vai.

Alex (Prego): Em 2007, quando lancei a Prego #1, resolvi viajar para BH para o FIQ. Eu só tinha essa publicação e no mesmo stand estava a galera da Tarja Preta, Quase e Sociedade Radioativa, que já tinham várias edições anteriores. Foi bem legal esse primeiro encontro, pois a galera dos quadrinhos independentes me recebeu muito bem e consegui vender todas as revistas que levei, além de conhecer pessoalmente vários cartunistas e artistas que admiro. Algumas dessas publicações foram se desfazendo e foram surgindo outras no lugar que deram um gás novo às publicações nacionais, como a Samba e a Beleléu.

Valente (Fabio Zines):

04ALGUMA HISTÓRIA DESSES ENCONTROS DEVERIA VIR A PÚBLICO?

Alex (Prego): Prefiro não comentar sobre isso…

Gibi Gibi: Nada a declarar

Stêvz (Beleléu): Melhor não.

Cyn (Golden Shower): (Isso aqui é pra sair num livro, DW? É alguma coisa que muita gente vá ler? Blé, que pergunta, entrevistas com quadrinistas independentes, não é exatamente a Caras, né?hehehe – corta isso!) Bom, uma história que eu gosto muito é do Lafa invadindo o palco na FIQ retrasada quando o Stevz tava tocando. Acho muito indicativo do excesso de amor genuíno que todo mundo ficou sentindo quando se conheceu.

Tiago (Beleléu): Um dia ainda vou publicar a Caras dos quadrinhos. Com fotos de flagrantes e estas histórias e fofoquinhas,eheheh. Ou quem sabe um blog.

Gerlach (Vibe Tronxa): No meu caso, acho que o ponto de convergência inicial (e decisivo) foi a Rio Comicon de 2010, onde tomei contato com o pessoal da Beleléu, Samba, Golden Shower, Rafa Coutinho (que depois fundaria a Narval Comix) e percebi que afinal de contas não estava sozinho na caminhada.

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Coutinho (Cachalote/Narval): Não acontece uma orgia secreta quando nos encontramos, não tem nada demais. Geralmente é beber e papear, fazer planos, choramingar, rir. Teve o mendigão da última Comicon do Rio que ameaçou bater em todo mundo no meio da madrugada, e a hq paralela que fizeram com um personagem de uma franquia de empadinhas que lançou essa revistinha para vender seu produto. Nêgo não perdoou, e fizeram ali mesmo uma tiragem pirata da revistinha que era de cagar de rir. Se não me engano chamava PEBADINHO. Dava tudo pra ter uma cópia disso.

DW (Roax): Leia os quadrinhos….

Valente (Fabio Zines): 

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O QUE PENSA DESSA IDÉIA DE CENA INDEPENDENTE? OU PREFERE NÃO PENSAR?

Cyn (Golden Shower): Eu acho muito legal você com um pouco de dinheiro e disposição poder imprimir o seu livro ou sua revista. Adoro o objeto-livro  e tiragens menores permitem que você mesmo possa criar o que quiser. Se você fizer zines então, pode criar umas coisas artesanais, serigrafias, etc. Nunca fiz uma coisa assim, mas eu acho que é aí que existe a maior jogada dos independentes e tenho umas idéias que ainda quero fazer pra FIQ nessa onda.

Alex (Prego): A cada dia surge uma publicação nova e novos artistas. Dentro dos independentes mesmo existem algumas divisões que são definidas pelo próprio estilo dos trabalhos ou por algum grau de afinidade entre os colaboradores. Esse lance de cena ainda é algo muito vago. Mas sei que existem pessoas pensando coisas muito próximas em lugares diferentes do Brasil (e do mundo).

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Gerlach (Vibe Tronxa): A ‘cena’ independente, até onde entendo, surgiu de uma necessidade orgânica, que demandava uma solução prática. Há uma nova leva de quadrinistas e quadrinhos brasileiros que não considera como opção esperar seu trabalho ser descoberto e veiculado por editoras estabelecidas. Isso acabou se alinhando com um relativo barateamento dos custos de impressão, e pela primeira vez vejo um número expressivo de autores se auto-publicando com relativa freqüência. Perceba que estou falando exclusivamente sobre quadrinhos como mídia impressa. Se você partir para os quadrinhos publicados na rede, o leque se expande muito mais, mas aí sinto que não tenho propriedade para falar a respeito.

DW (Roax): Confesso que minhas intenções não são tão mercadológicas. Resolvi me dar a esse luxo porque senão acabo pensando demais em coisas que não quero. Mas é lindo ver o amor das pessoas, dos autores e também do público.

Stêvz (Beleléu): Precisamos pensar. Os independentes procuram se ajudar, dentro das suas afinidades. Trocamos livros, compramos uns dos outros e divulgamos o material ou os eventos alheios, na medida do possível. Não apenas por alguma espécie de sentimento de classe, mas por realmente admirar o que vem sendo feito e publicado. Mas o país é bem grande para conhecermos tudo ou todos, isso acaba sendo mais importante dentro da própria cidade de cada grupo, acho.

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Tiago (Beleléu): Ainda nos toma muito tempo, dá muito trabalho. É dificil conseguir espaço nas mídias tradicionais. Deixamos um pouco de nosso tempo nas mesas para manter a coisa funcionando. É um mercado com seus vícios e panelas. Mas não podemos ficar reclamando. O resultado vem com a produção. Não temos planos de transformar nosso selo em uma mega editora. Queremos manter esta aspecto artesanal. Mas sem esta idéia de produto tosco. Grandes poderes trazem grandes responsabilidades.

Coutinho (Cacahlote/Narval): Penso até demais. Parei de fazer de brincadeira há uns anos atrás, quando montei a empresa e resolvi dedicar boa parte da minha vida a publicar e viabilizar essa história de quadrinhos independentes no Brasil. Mas não é algo que se resolva de uma hora pra outra, é preciso ir com calma. Muito disso tem a ver com a economia do país, da cultura de quadrinhos se disseminar, de mais gente se interessar. Faço a minha parte porque acredito que na matemática é melhor ser independente, e é possível construir algo duradouro e estruturado no momento que vivemos. Mas sei que ainda não é um cenário maravilhoso, exige muito trabalho e comprometimento. Estamos em um período de construção de base, que demora mesmo. Vamos com calma, que acho que tá bom demais.

Gibi Gibi: Não pensar.

Valente (Fabio Zines): 

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PRA QUE OUTRAS DIREÇÕES ALÉM DAS PUBLICAÇõES ISSO PODE LEVAR? ALGUMA IDÉIA MIRABOLANTE? (REALIZÁVEL, MAS MESMO QUE EM NÍVEL DE SONHO OU PLANEJAMENTO AINDA?)

 Gerlach (Vibe Tronxa): Na real não sei. Prefiro acreditar que é algo que veio para ficar, mas sem querer soar pessimista, não me surpreenderia se houvesse uma retração no número de publicações mais adiante. Os custos de impressão, como mencionado, diminuíram, o que não significa que seja exatamente barato publicar, nem que o retorno financeiro seja certo e muito menos a curto prazo. Criar e gerir ao mesmo tempo em geral é bem desgastante, e me parece que ainda estamos nos estágios iniciais desse novo paradigma de publicação, não convém ufanismo exagerado. Uma série de problemas persiste, os principais sendo, a meu ver: a dificuldade de distribuir as obras em ampla escala sem que isso torne o preço final dos gibis um acinte ao público; e o já mencionado público leitor reduzido (levando em conta a imensa população do país e o tal público ‘potencial’). A maioria esmagadora dos autores de agora não subsiste de seu trabalho com quadrinhos, tendo de recorrer a outros meios de renda pra tocar seus projetos com alguma segurança. Obter um pouco mais de retorno financeiro com as coisas que resolvo publicar, de momento, já seria muito bem-vindo, pois possibilitaria um número maior de publicações.

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Gibi Gibi: Vamos ver o que rola de retorno da segunda edição, temos muitas coisas em mente no que diz respeito a publicações, mesmo que sem pretensões, ir acrescentando na prateleira pra gente ter aquele orgulhinho.

Alex (Prego): Eu costumo dizer que a Prego é um projeto mutante. A publicação é o carro chefe mas ela se desmembra em várias atividades: Publicações, Vídeos, Serigrafia, Exposições, Eventos, Ilustração, Música, Ciclismo, Artes plásticas… A porra toda!

Stêvz (Beleléu): Todos acabam fazendo merchandising, produtos (camisetas, bonés, etc). Há também o lado artístico da ilustração, gravuras, pinturas, originais. Acho que é lógico que isso seja exposto e apreciado como arte em algum momento. Além disso, o audiovisual está bem próximo também. Já acontece com a TV Quase, o filme dos Palhaços Tristes, etc. Queremos fazer animações em breve.

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Cyn (Golden Shower): Olha, não sei pensar como movimento mais, ando meio afastada de todos os eventos, mas acho que as pessoas, além de talento, estão muito motivadas, fazendo coisas interessantes e, bom, acharia legal se esses sêlos crescessem e a gente tivesse aqui no Brasil editoras semelhantes à Nobrow e coisa do genero. Ah, ia pirar no irrealizável e dizer que gostaria que quadrinhos virassem o novo cinema e todo mundo ficasse milionário, mas enfim, sem derrotismo, pelo menos que quadrinhos entrem no nível da literatura, ahn?

Coutinho (Cachalote/Narval): Como disse, acho que as coisas mais simples precisam acontecer ainda, antes de entrarmos no mundo fantástico das publicações fora do padrão. Coisas como legalizar empresa, montar pequenas editoras com um consolidado grupo de revendedores, revendedores esses que compram e não consignam, divulgação e distribuição por região. Mais publicações também, mais gente lançando, mais eventos, isso tudo é muito importante. Mas há novidades interessantes, como os crowdfundings, web-histórias, assinatura (de projetos digitais), uma demanda maior de material virtual. E-books, e ainda acredito no retorno das revistas de quadrinhos no país, coisa que saiu de circulação há mais de 10 anos. Acho que isso tudo monta um bom cenário, se ampliado.

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REPERCUSSÕES DE ALGUN(S) TRABALHO(S)?

Stêvz (Beleléu): Alguns críticos já tuitaram sobre a gente.

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Alex (Prego): A Prego circulou em muitos lugares do mundo e assim fiz muitos contatos legais. Quando comecei a revista, eu mandava exemplares para alguns artistas que admiro e hoje esses caras tem um grande interesse e alguns deles até revendem a Prego, como é o caso do Fábio Zimbres. Isso pra mim é uma coisa muito boa, fico feliz de verdade em ver que tem gente que acredita na idéia da revista e faz questão de passar pra frente. Acho que a repercussão do trabalho maior foi que hoje conseguimos conquistar dois espaços físicos aqui na cidade para trabalhar e dar visibilidade ao que estamos fazendo. Fora isso, acredito que a Prego tem sido uma escola de vida em relação ao trabalho autônomo e as relações humanas (risos).

Coutinho (Cachalote/Narval): Não. Temos um monte de produtos relacionados ao Beijo Adolescente pra fazr agora, e terminada e impressa a série, vamos mandar pra todo mundo que colaborou. Acredite, já é bastante coisa.

Cyn (Golden Shower): Quando conheci o Gary Panter (muito brevemente) e lhe dei uma Golden Shower ele peguntou se eu não era amiga dele no facebook porque ele já tinha visto a revista antes. Não é lá uma re-per-cu-ssão, mas é o que me lembrei e foi super.

Gerlach (Vibe Tronxa): Nada em específico, mas quanto à recepção crítica dos meus lançamentos, não posso me queixar. Por conta da resposta majoritariamente positiva (e mais, pelo mero fato de pessoas terem gasto tempo dedicando algum tipo de pensamento crítico a esses lançamentos), tenho a impressão de que era algo necessário, uma decisão acertada ao menos do ponto de vista da fomentação da tal ‘cena’ e da minha satisfação pessoal como quadrinista.

DW (Roax): É legal ver a coisa surgindo pouco a pouco. Curto os comentários e a visão das pessoas que se dignam a comentar sem dó sobre o trabalho.

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Valente (Fabio Zines):

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*Quem bebe mais : uma das coisas mais legais dos últimos anos

QUAIS OS LANÇAMENTOS MAIS LEGAIS QUE FIZERAM, QUAIS OS ÚLTIMOS E OS PRÓXIMOS?

Alex (Prego): De 2007 pra cá, foi lançado: Revista Prego #1, #2, #3, #4, #5 e vamos lançar a #6 no próximo mês! Foi lançado na Feira Plana. E outros lançamentos paralelos, alguns em parceria com outros selos e autores: Ataque Fotocópia (Alex Vieira), Versão Alterada (Julio Tigre), Vulgar Manual e Quadro Negro Verde (Guido Imbroisi), Gente Feia na TV #1 (Chico Felix) e Ano do Bumerangue (Diego Gerlach). Nesse ano temos alguns lançamentos engatilhados tbm: Gente Feia na TV #2 (Chico Felix), Ejaculator (Lobo), Tiras de Merda (Vários autores), Os quadrinhos mais sujos da face da Terra (Cristiano Onofre)

Gibi Gibi: Estamos preparando uma baciada de coisas para 2013, o Luiz está editando a antologia Goró, vai ter uma história publicada na Suspect Device #3, na Tétanos, Lodaçal e Prego; o Heitor está esboçando uma história para a coleção ZUG da Balão Editorial, além de estar preparando material para outros zines ainda em processo de criação; O Mateus vai ter histórias publicadas na Stripburger, Samba #3 e está preparando algumas publicações coletivas e individuais, além de publicar a série regular PEZ, na revista Amarello. Em 2013 também vai rolar o lançamento do primeiro álbum do Mateus e Heitor, o Salalé.

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Stêvz (Beleléu): Em 2012 lançamos Se A Vida Fosse Como a Internet, Monstros e Calendário Pindura. Os dois últimos em dezembro, então vamos começar o ano divulgando os livros, lançando em outras cidades, e nos preparando para outras publicações e aventuras. Estou trabalhando no livro do Friquinique, e temos outros em vista para o primeiro semestre, mas isso dependerá de vários fatores. De qualquer forma, estamos aí, mais vivos do que nunca.

Tiago (Beleléu): Estou com meu caderno de viagens pela Itália no gatilho. Quero muito lançar pela Beleléu. Em breve.

DW (Roax): Bom, pelo selo só lancei o zine MAU na Feira Plana, tenho na fila um albinho que acho que vai chamar “Pornô”ou algo assim e depois uma revista “mensal” chamada “Fixação Por Insetos”.

Coutinho (Cachalote/Narval): Esse ano lançaremos um livro do Laerte, da “LOLA”, pra crianças. Temos a série do projeto MIL pra lançar em uma caixa com todos os 12 juntos, e queremos lançar o Gazzara em uma caixa também. Voltaremos com os produtos paralelos, canecas e camisetas, posters também, e temos planos pruma revista digital. Mas com calma.

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Gerlach (Vibe Tronxa): O primeiro lançamento foi meu gibi ‘Alvoroço’, com uma tiragem de 1000 cópias. Não sei dizer ainda qual vai ser o próximo, porque às vezes um projeto acaba se alongando mais do que o esperado antes de ser publicado (por N fatores…) e algum outro lançamento acaba furando a fila. Mas um lançamento no qual tenho trabalhado bastante leva o título provisório de ‘Vórtex’, uma história de horror que estou criando em parceria com Mateus Gandara. Gerlach lançou depois o zine Know-Haule e participou do lançamento coletivo Tiras de Merda, produzido durante a Gibicon em 2012. 

Cyn (Golden Shower): Todos os que eu ja fiz, no grande total de TRÊS! e Todos os que eu ainda vou fazer. Hehe.

Valente (Fabio Zines): 

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* Fabio Zines. 

* Vale a pena conferir também o projeto fotográfico NANKEEN do Rafael Roncato com quadrinistas diversos.

* Vale a pena seguir a Maria Nanquim.

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Na selva dos orçamentos, recentemente, me ocorreu o quanto estamos desamparados em termos de gráficas para autopublicação. Mais especificamente no campo das artes gráficas/visuais, em que a impressão por demanda ainda não dá conta do recado, o editor independente se vê obrigado, a cada novo projeto, a pechinchar em todas as esquinas para encontrar um preço razoável e adequado ao seu bolso, e sem mandar a qualidade da publicação às favas. Tudo isso, enquanto é tratado como um mongolóide amador (e ainda o somos!), sem um mínimo CNPJ nas mãos. Quando chega a hora da gráfica é que o parto realmente começa. E tudo ainda pode dar errado.

Lembro da minha primeira incursão pra valer no mundo das tintas e cilindros, pesquisando preços para imprimir o primeiro gibi. Eu e Gomez rodamos o setor de indústrias gráficas sem bússola, completamente desnorteados. Acabamos pagando dois-barão em cash, no primeiro lugar em que nos levaram a sério, para rodar a revista e torcendo pra tudo dar certo. Ingênuos, a ideia era imprimir em papel jornal. Se é vagabundo, claro que deve ser barato! Ledo engano, a tiragem mínima teria que ser absurdamente alta para nossos modestos planos de dominação mundial. De lá pra cá, fui obrigado – e me obriguei – a aprender mais sobre a produção gráfica em si: como funciona a quadricromia, como fechar um arquivo, o que pode dar certo ou não, etc. Mesmo assim, ainda não é o bastante. Sequer arranhei a superfície de possibilidades e fetiches gráficos, apesar de não cometer mais tantos erros grosseiros. Anos depois, o Bruno Azevêdo me pergunta sobre lugares para rodar um livro-de-contos-eróticos-para-senhoras-de-família em papel jornal e a minha resposta ainda é “não sei”. Matias, onde prensavam a Tarja Preta? Jornalecos de bairro, me passem o fornecedor!

O primeiro profissional do setor gráfico que perceber esse filão pulsante, de quadrinistas carentes com revistas embrionárias a tiracolo, e abocanhá-lo com fidelização, preços justos e qualidade, fará um negócio da China. Aliás, já pensamos em imprimir o Pindura na China, mas provou-se algo meio fora do nosso alcance. As grandes editoras estrangeiras rodam tudo por lá. Consta que o próprio Chris Ware precisou conferir in loco a prova de cor de Jimmy Corrigan. Nós, pés-de-chinelo, não temos tanta moral. A gráfica de Aparecida refilou metade dos livros errado. Eu tinha pago adiantado, achando que isso garantiria boa vontade e bom serviço por parte deles. Qual nada, ficou tudo por isso mesmo.

Existem, é fato, os obstinados e talentosos artistas da impressão artesanal, como Daniel Barbosa e seu Caderno Listrado, ou o prego Alex Vieira, e sua máquina de fotocópia (inveja), para citar alguns. Serigrafia, letterpress, gravura, o fato é que, por mais interessantes que sejam essas possibilidades, estão longe de suprir a demanda reprimida do quadrinista independente contemporâneo, da reprodutibilidade instantânea e feroz, do hi-fi analógico em celulose para as massas. É massa fazer um zine xerocado, costurado e de tiragem limitada, mas é trabalho demais para pouco resultado (leia-se $$$), sem falar nas óbvias limitações desse processo. Não me entendam mal, ainda acho que o futuro da publicação física passa por aí, pela personalização do objeto, pelo aspecto de raridade e cuidado afetivo dedicados a ele, mas, no estágio de curiosidade em que o nosso mercado se encontra (pronto, lá vem ele), isso não basta. Todos querem sentir o cheiro da tinta. E ainda tateamos nessa primeira barreira para a existência física da publicação.

Confesso que não tenho o menor talento (ou paciência) para lidar com gráficas no tête-a-tête, nas minúcias necessárias à confecção dos famigerados impressos. O autor independente hoje, além de editor, diagramador, gerente de vendas, contador, relações públicas, mídias sociais, carregador, office-boy e telefonista, deve ser o seu próprio produtor gráfico. E nesta divisão infinita de tarefas, seu poder de criação é diluído. Se não todas, pelo menos alguma das funções sofrerá nesse processo. É comum, em coletivos, ninguém querer ficar com a “parte chata”. Infelizmente, a parte chata é que leva a empreitada adiante. Inclusive à uma eventual profissionalização, de fato.

Ou não. Qualquer dia uma vaquinha dos independentes descola um riso-duplicador e aí já era. Lá fora, centenas de microeditoras autorais operam apenas com esse singelo maquinário, ainda salgado pro nosso bolso (cerca de dez a quinze mil pilas), fazendo livros lindos por conta própria. Outra esperança é descobrir uma impressão digital por demanda realmente decente e em conta, para lançarmos tiragens menores. Imprimir mil livros é fácil, mas onde é que você vai guardar todas aquelas caixas, campeão? Dividir a casa com o estoque não é tão divertido quanto parece.

Voltando à vaca fria: gráficas, se liguem! A cena está crescendo, estamos pagando para imprimir, e não vamos parar tão cedo.
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in: Manual do Quadrinista Independente Mirim – diversos autores, inédito.

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Mas sei lá, não acho que mereçamos tratamento especial ou peninha de ninguém. Grandes empresas também precisam pesquisar e batalhar orçamentos entre seus fornecedores. Taí o pulo do gato, ter alguns deles na manga, ter um relacionamento aberto e saudável com os fornecedores. De qualquer forma, talvez a onda seja mesmo investir em métodos alternativos de impressão, tiragens limitadíssimas, acabamento artesanal e poucos – porém fiéis – leitores.

pequena atualização: pouco depois de escrever este texto, topei com o Meli-Melo Press, de São Paulo, que imprime em Risograph. O próximo Gibi Gibi vai ser rodado por lá, mal posso esperar para ver. Mas não sei se isso seria uma luz no fim do túnel ou apenas um fetiche retrô. De qualquer forma, cada um dá seu jeito.

 

“Histórias em quadrinhos são a fantasmagórica fascinação daquelas pessoas de papel, paralisadas no tempo, marionetes sem cordões, imóveis, incapazes de serem transpostas para os filmes, cujo encanto está no ritmo e dinamismo. É um meio radicalmente diferente de agradar os olhos, um modo único de expressão.” – Federico Fellini

 “As comics readers gazing down from a higher dimension perpendicular to the page surface, we can actually peer inside characters’ toughts with balloons or captions that provide running commentary. We can stop on page 12 and look back to page 5 to check a story point we missed. The characters themselves continue to act out their own dramas in the same linear sequence, oblivious to our shifting perspective.” – Grant Morrison 

 

O universo ficcional, em qualquer que seja a mídia, não é nunca capaz de apresentar um retrato fiel da realidade. Os discursos de uma personagem, assim como toda a profundidade que a mesma tenha a capacidade de expressar através de quadros de texto ou diálogos não representam a totalidade de um ser humano sofrendo de pressões, intenções e idiossincracias do mundo comum.

Isto, no entanto, não impede a nós, como espectadores de ficção, de nos identificarmos com este ou aquele personagem. Muito pelo contrário, há até uma gama de leitores que certamente, entre este nosso mundo cinzento e pouco afeito a aventuras e aquele, colorido e pleno de possibilidades, se tivessem de escolher, não pensariam duas vezes em dar adeus para as contas e se imiscuir a um plano de existência onde vôos, amores e tesouros se apresentam em cada esquina. A possibilidade do sucesso é quase capaz de nublar os perigos que a vida ficcional apresenta como leitmotiv para que as aventuras não cessem.

O que me leva ao tema deste que se pretende um breve artigo: a imutabilidade da personagem de ficção dentro do gênero dos quadrinhos.

De forma simplista, num primeiro momento, explico esta dita imutabilidade com exemplos óbvios, oriundos de personagens que se tornaram

marcas e que por isso mesmo são impedidos de evoluír, em qualquer sentido que for, correndo o risco de perder os lucros certos que são capazes de gerar. Depois, correndo o risco de errar feio em meu julgamento, o conceito será também brevemente explanado quanto às publicações autorais.

No primeiro caso, é claro, os exemplos não fogem do comum e posso citar personagens em que as mudanças, de fato, nunca ocorrem. Mickey, Pato Donald e Tio Patinhas, com certeza nunca sentiram o peso do tempo, tornando-se, alias, cada vez mais interessantes, ágeis e capazes de provocar um polpudo retorno financeiro a empresa que os representa. O mesmo com personagens como o Batman ou a nossa tão brasileira (agora, quase sino-japonesa) Mônica.

Esta última, ainda que tenha assumido características adolescentes em uma recente encarnação, carrega uma gama de elementos reconhecíveis que aos olhos do leitor das antigas não perde a familiaridade. O mesmo com o Batman ou qualquer outro super-herói que nas últimas décadas tenham se ocupado de espancar bandidos e salvar o mundo em detrimento de suas vidas pessoais.

 

Estes personagens, servindo a fome editorial de renovação de estoque, são efetivamente incapazes de acumular experiências ou se modificarem. Mesmo que cronologias internas sejam estabelecidas dentro dos limites do mundo desses personagens, ainda assim o Tex continuará a ser um bravo cowboy cavalgando em direção ao horizonte no final de cada aventura, assim como o Batman jamais irá cessar sua longa batalha contra a injustiça, Asterix e Obélix contra a fome e a Mônica contra as investidas do Cebolinha para dar nós nas orelhas de seu bichinho de pelúcia (algo que, embora sempre soubéssemos, finalmente foi explicitado como um jogo de gêneros e interesses sexuais na versão juvenil da criação de Maurício de Souza).

No outro caso averiguado por essa não tão organizada investigação, encontramos o extremo da criação quadrinhística que são as ditas histórias autorais.

Tomar parte do texto explanando o que seriam quadrinhos autorais me parece perda de tempo, visto que o DW, neste texto, já deu o serviço de forma muito mais clara do que, está óbvio, eu conseguiria. Talvez, um adendo particular meu seja o de que mesmo no mainstream pode-se encontrar trabalhos fortemente autorais, como as histórias pés-no-chão da dupla de verdinhos, Arqueiro e Lanterna, pelas mãos dos mestres Dennis O’Neil e Neal Adams, na década de 70 e o estranhíssimo X-Statix de Peter Milligan e Mike Allred, neste apresentando um diálogo explosivo e pós-moderno com a cultura pop, e naquele uma linha de argumentos que levaram os quadrinhos de super-heróis à uma aproximação social e crítica que até hoje é difícil de se encontrar no gênero.

 

 

Mas o tema desse artigo são as personagens e como, segundo o meu turvo julgamento, essas peças de xadrez com as quais os autores beligerantemente brincam e que servem de elemento de identificação para o leitor, são incapazes da mudança na grande maioria dos casos. Mesmo nas histórias que apresentam as assim chamadas “histórias de formação”, este elemento, a personagem, ainda que observada ao longo de mais de seiscentas páginas do parto ao dia da sua morte continuará incapaz da mudança.

Primeiro porque “o conhecimento dos seres é fragmentário” e “esta impressão se acentua quando investigamos os, por assim dizer, fragmentos de ser, que nos são dados por uma conversa, um ato, uma seqüência de atos, uma afirmação, uma informação. Cada um desses fragmentos, mesmo considerado um todo, uma unidade total, não é uno, nem contínuo. Ele permite um conhecimento mais ou menos adequado ao estabelecimento da nossa conduta, com base num juízo sobre o outro ser; permite, mesmo, uma noção conjunta e coerente deste ser; mas essa noção é oscilante, aproximativa, descontínua.”

Bem, o parágrafo anterior é quase que inteiramente uma citação do professor Antonio Candido a respeito da personagem do romance, em texto presente no primeiro voluma da coleção Debates, da Editora Perspectiva. E ainda que ele não esteja falando sobre o personagem nas mesmas condições que eu, isto é, a respeito de seu caráter imutável, me aproprio deslavadamente do discurso e disseco-o, de acordo com minha interpretação.

Para isto, cito como exemplo três quadrinhos que, embora distribuídos em grande escala e produzidos por grandes nomes do circuito, parecem-me imbuídos de todas as características necessárias para serem consideradas obras autorais. São eles A Small Killing, de Alan Moore e Oscar Zarate, Asterios Polyp, de David Mazuchelli, e Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá.

Em breve análise comparativa, podemos encontrar nas três histórias elementos comuns a seus protagonistas: a re-avaliação de suas vidas como mote para a narrativa, um círculo de coadjuvantes que a vida foi capaz de afastar, perder ou mesmo mudar e a constante busca por uma redenção, que tanto pode surgir na forma de uma conversa há muito ansiada, ainda que frustrante, como num significativo re-encontro. Em suas buscas as personagens principais dessas histórias refazem passos mitológicos (onde a re-avaliação não significa necessariamente uma mudança), em que revivem suas próprias e significativas experiências, tais como o nascimento. Uma viagem de LSD em tamanho família, onde tudo se assemelha a uma bad trip, e de onde não se pode sair incólume no final.

Joseph Campbell diz que no que tange ao caminho dos heróis “tudo gira em torno de provações e revelações”, mas e quando, como nesses casos, a revelação é o honesto descortinar de momentos embaraçosos e de comportamento moral abominável? Pois se o único momento em que o Brás de Bá e Moon se apresenta como um cretino é quando tem de encarar uma semi-desconhecida meia-irmã no dia do nascimento de seu filho/morte de seu pai, no caso dos protagonistas de Asterios Polyp e A Small Killing a situação é um tanto pior, pois, mais verossímeis, eles tiveram, cada um, uma vida inteira de situações onde agiram de forma insensível e ingrata. E ao final dessas aventuras, no breve fôlego que a vida literária nos apresenta com a sinuosidade de um ilusório “fim” na última página, o momento permanece em suspenso, como se a vida abrisse novos caminhos para esses recém-modificados homens, enfim capazes de perdoar a si mesmos.

Mas isso não lhes garante a mudança. Pelo contrário, estabelece-os rígidos, fixos e engessados tanto na estrutura física do material quanto na lógica circular a que a maioria das narrativas se prende – o que me leva neste texto a propor um novo caminho, aberto a conjecturas e explorações de possibilidades narrativas que não se vinculem apenas ao formato físico comumente associado aos quadrinhos, que mesmo em narrativas online tendem a fossilizar a história contada em prol de caminhos e rumos que seguem apenas adiante, euclidianamente adiante.

Basicamente, se a estrutura é mutante o personagem também pode ser, por ser capaz de fugir do roteiro básico de leitura que prenda a leitura da página 33 à subseqüente 34 e a anterior 32.

E surge a questão: o modelo de narrativa não-linear seria capaz de atrair novos leitores? Creio que sim, desde que esses leitores sejam movidos pela curiosidade intelectual e não por integrarem um grupo de leitores formados com a lógica narrativa aristotélica comum, que também não se perde, e talvez não perca nunca seu espaço, mas que inegavelmente podem oferecer mais, exigir mais e, por que não, inspirar mais.

Gerlach me convidou a tentar elaborar um raciocínio lógico e linear sobre o ofício de quadrinista aqui neste blog. Mesmo correndo o risco de falar demais, me contradizer, cair no ridículo ou simplesmente desperdiçar meu precioso tempo (e o seu), aí vai.

sobre produção, nível de obsessão, apego e refinamento de desenhos

Tenho pressa. Na função de editor, volta e meia me pego cobrando os colegas (e a mim mesmo) por agilidade e cumprimento de prazos, e aconselhando: “não precisa ser uma obra-prima, entrega logo essa porra”. E não precisa mesmo. Depois da obra-prima, tudo o que você fizer será pior. Não haverá como superá-la, prepare-se para anos de declínio pela frente.


fig.1   minha obra-prima
 
 

Há urgência, da minha parte, em explorar todos os caminhos, botar as idéias no mundo, jogar a merda no ventilador e partir pra outra. Já tive outros métodos de trabalho, mais obsessivos e meticulosos. Hoje me incomoda gastar tempo demais sobre um desenho só. E não confunda isso com desleixo. É, antes de tudo, a busca pela síntese: passar a mensagem. Trabalho com idéias. A imagem para mim, na maioria das vezes, é secundária, a não ser que a própria imagem seja a idéia em questão. Ela por ela mesma. Mas, geralmente, ao ter que elaborar uma imagem demais para poder passar a idéia, me pergunto se ela está clara, ou mesmo se é boa o suficiente. Entra aqui um ponto delicado, que é decidir o momento em que algo está “pronto”, saber largar mão e partir pra próxima. Tendo a elaborar a coisa em pensamento antes de partir para o fazer em si, o que nem sempre é o melhor caminho. Por vezes o próprio processo indica as soluções, mesmo que venham do erro. E o erro é uma das partes mais importantes do processo. A dúvida também. Acredito que a criação deva ser, antes de qualquer coisa, uma busca por satisfação pessoal. Mas a partir do momento em que se bota pra jogo, é preciso comunicar, ou não adianta choramingar se o trabalho for incompreendido (o que pode acontecer mesmo com uma obra-prima). Comecei a publicar em 2006, por conta própria. Desde esse primeiro projeto, buscava no experimentalismo uma solução gráfica para as idéias, aprendendo na tora, faça-você-mesmo total. Algo muito trabalhoso e elaboradamente artesanal ainda, apesar dos computadores, vejam bem. Mandamos a Bongolê para o Millôr. Ele respondeu, de próprio punho: “É preciso passar do barroco para o rococó, e daí para o simples. Assim como está, só eu te entendo” (embaixo, o desenho dos pés de um afoito afogado concluindo “dá pé”). É o que venho tentando alcançar desde então, a simplicidade.


fig.2   reciclagem de materiais
 
 

E a simplicidade, rapaz, exige paciência. Produtividade, fluxo de concretização de idéias. Fazer mais do que falar, criar algo ao invés de apenas sonhar (e pior, divulgar) projetos que nunca existirão. É aí o ponto em questão: o que vale é o resultado. Para o leitor pouco importam o processo e as dificuldades que o autor enfrentou para chegar àquela obra, pelo menos num primeiro momento. O que conta é a mensagem. Algumas idéias nos perseguem pela vida toda, cozinhando em banho-maria, lentamente tomando forma, e realmente requerem esse período de formação e elaboração. Esbarramos em outras pelo caminho, por vezes despretensiosas, mas que rendem frutos interessantes e inesperados. Algumas idéias necessitam de lapidação para fazer sentido, outras realmente não prestam pra nada, por mais que insistamos. Por isso, também, é não apenas válido, mas inevitável, soltar uns diamantes brutos pelo caminho. Ou seja: na dúvida, faça. E corra, sem olhar pra trás.

“Tava pensando uma coisa, vê o que tu acha.”

DW Ribatski, o quadrinista curitibano de Vigor Mortis, o tá-quase-saindo Campo em Branco e uma porrada de outras histórias publicadas aqui e ali, começou o convite com estas palavras. Queria escrever um texto sobre seu método de criação de HQ – que batizou de SHUFFLE – e ficou “pensando se não seria legal ter a mediação de um jornalista”. DW acabou a mensagem me desejando Feliz Páscoa. Era final de dezembro.

“Gerla sugeriu como referência Comics Journal ou o blog do Matt Seneca.” Arrã, claro, já fiz várias. Not.

O fato é que, no último FIQ, expliquei para o DW que eu tinha adorado a história dele na Café Espacial n. 10, chamada “Ambulância Pornô”. Mas não tinha entendido a trama. Ele tentou me explicar, sem muito sucesso. Concordamos que eu gostar-mas-não-entender podia ser uma coisa boa.

Sugeri uma entrevista construída pergunta a pergunta, via e-mail. Eu mandava uma pergunta, ele respondia, eu fazia outra pergunta e assim por diante. O resultado está abaixo. Tem narrativas femininas, koans e dopplegangers, Clarice Lispector e saber chegar à infância. Divirta-se.

por Érico Assis

* * *

Eu gosto dos seus quadrinhos. Gosto do traço, gosto da composição, gosto das ousadias formais. Mas nem sempre entendo, e gosto mesmo sem entender. Explique porque eu não consigo explicar.

Haha. Bem, acho que se todo mundo tiver essa opinião que você tem e ousar gostar de algo que não se completa inteiramente, será sinal de que eu alcancei meu objetivo. Basicamente: acho que tudo conta uma história. Temos essa capacidade de juntar pedaços.

2. Já que é o leitor que junta os pedaços, como é o processo de criação? Você pensa uma trama e depois desmembra ela em pecinhas de quebra-cabeça? Vai construindo variações sobre o tema? Existe um método?

Então, faz alguns anos que desenvolvo um método. É estranho chamar de “método”, já que ele  “exige” que eu não planeje muito, senão a minha tendência natural é escolher um molde que eu já tenha visto pra colocar a história dentro, e assim eu broxo antes de começar. Não acho que é desonesto usar moldes, é uma coisa minha mesmo. Saber exatamente o que vai acontecer me incomoda. Conhecer inteiramente os personagens me incomoda.

Acho que a narrativa naturalista não é a forma mais “correta” de comunicação, é só uma convenção bem arraigada e que, portanto, exige menos atenção pra se construir uma “história”. Eu digo que o método é uma variação da forma “feminina” de lidar com a consciência, menos racionalista.

3. Você quer dizer que um método mais “feminino” é menos racionalista, isso? Pode explicar melhor essa fuga da narrativa naturalista?

Isso, algo a ver com o “lado b” das coisas, o oriental, o feminino, o intuitivo, o que não parte de uma construção lógica com começo, meio e fim. Na verdade existe uma construção, sim, mas ela é determinada em diferentes momentos. Começa-se um pouco livre, às vezes no começo, às vezes no meio do processo rolam uns direcionamentos “masculinos”, mas uma coisa sutil, e você vai aprendendo com o tempo como fazer isso crescer.

Essa fuga tem a ver com o seguinte: depois de anos lendo, quadrinhos, livros etc. e lendo sobre teoria da escrita ficcional você começa a “escolher” onde se encaixa o tipo de trabalho que quer oferecer. Daí vem aquela premissa (chata na minha opinião): “é impossível inventar coisas novas, tudo já foi feito”. Eu não concordo. Posso estar errado, caso algo que eu faça seja analisado a partir de um contexto formal e histórico. Mas não me importa muito, desde que eu esteja “livre” durante o processo. O resultado nem sempre será bom, mas é preciso se permitir. A minha idéia é chegar  em lugares novos simplesmente tropeçando neles.

4. Ok, mas ainda nesta conversa sobre quebra da estrutura formal, há quem diga que é impossível quebrar a estrutura de três atos, seja qual for a narrativa. Toda história tem introdução, desenvolvimento, clímax, atenuamento, ou seja lá como você quiser chamar estes estágios. Início, ponto alto e fim, se preferir. Você também embarca nas suas histórias sem ter isso planejado? Você comentou que não gosta nem de saber muito dos personagens, mas tem ideia daonde quer chegar com eles?

Acho que pra conseguir esta quebra é necessário assumir algumas coisas: a narrativa de três atos e a construção de personagens é uma forma bidimensional de entender algum aspecto do mundo. E bastante eficiente, com certeza. Você dá funções, razões e personalidades aos personagens ou enfia uma paradoxalidade justamente pra inverter o que vinha construindo. E tudo acaba tendo uma relação causal tipo “isso causou isso” e o leitor fica sabendo de todos estes eventos. Assim, mesmo que aparente ter encontrado a “resposta” subjetivamente, ele recebeu pistas do autor.

Eu acho que prefiro explorar o “mistério” sem ter certeza da resposta. Um leitor pode virar pra mim e definir o personagem ou alguma atitude melhor que eu. O Gerlach em uma dessas me deu várias idéias sobre uma história minha chamada “DOIS”, que deve sair este ano num Minitonto do Zimbres. Falou pra mim que a história parecia um ‘koan’, e apontou a idéia do doppleganger no meio da história, fui pesquisar os assuntos e pirei! Tinha muito a ver mesmo.

Minhas histórias tiveram muitas influências, entre elas, as versões confusas de fábulas que meu avô contava, que por terem sido passadas por tradição oral, eram um mistério, que para ele se resolvia através, provavelmente, do mesmo mecanismo cerebral que o fazia não questionar a Bíblia. Onde estão os três atos na Bíblia? Ou por exemplo, a verdadeira história da Chapeuzinho Vermelho: o Lobo se adianta, mata a avó, se disfarça, faz Chapeuzinho beber o sangue da velha fingindo que é vinho ou algo assim e comer a carne dela. Não segue uma lógica do tipo atual, onde essa história se encaixaria como “terror” ou algo do tipo. Não busca se encaixar num estilo que o justifique.

A mitologia é uma grande influência. Então, não, nem sempre tenho intenção de levar o personagem pra algum lugar. É como uma música onde um instrumento não aparece nela inteira, só faz um som rápido ali no meio. E aí, o que isso representou pra música?

5. Em ‘Adultos Não Existem’, parece que você quer levar esse “não-causalismo” às últimas consequências. Os quadros fazem sequência aleatória, os diálogos não se completam, as frases ficam pela metade, até as palavras parecem intencionalmente cortadas. É algo que você quer desenvolver enquanto estilo ou você quis reforçar a desconexão neste trabalho específico?

Sim, tem essa coisa mesmo de tudo estar meio cortado, um pouco ilegível. Acho que tem a ver um pouco com minha paixão pela abstração. Sou meio fascinado pela idéia de que tudo contém energia e potencialidade: um rabisco qualquer pode ser um desenho, uma sequência de palavras pode ser um texto. Sempre curti experimentações em diversas áreas, e em certo momento resolvi começar a mixar essas idéias com quadrinhos. Acredito que a linguagem reconhecida como legível é só uma instituição, então se arriscar na mata fechada talvez permita encontrar a tal “originalidade”que tantos dizem não existir mais. A busca é dura, porque não pretendo criar um trabalho hermético e ficar me defendendo dizendo que as pessoas tinham que se esforçar pra entender, ainda assim não espero que todo mundo goste quando EU acho que acertei. rs.

Tem a ver também com conceitos orientais, onde o “ir” é mais importante que o “chegar”. Trabalhar o “quase”.Entender a coisa como uma composição, como uma canção instrumental, como uma sequência de cores e formas. Assim eu mesmo, enquanto autor, consigo tirar umas “lições” delas, como se minha opinião sobre a história tivesse o mesmo valor que a de qualquer leitor. Fazer personagens que “não sejam eu”, com quem eu não concorde ou entenda inteiramente e às vezes extremar alguma persona tímida própria.

E essa história que você citou, “Adultos não existem”, posso tentar interpretá-la “ao vivo”? Não costumo fazer isso, mas acho que as vezes ajuda as pessoas a entenderem o meu jeito de ver a montagem.

6. Mas se você interpretar a sua história “ao vivo”, não acha que vai prejudicar o que estava falando, sobre como você quer que o leitor fique meio perdido?

Hahah. Acho que se eu fizesse isso sempre, sim. Seria uma exceção. As vezes fico me coçando, querendo que as pessoas liguem os pontos. Porque no fim das contas sempre tenho uma boa história por trás da loucura toda.

7. Então, conte os bastidores. Como você chegou à história e especificamente a esta forma de contar esta história específica?

Então, essa parte é intuitiva. Não tinha um objetivo claro desde o princípio “quero tratar do tema x”.

Essa aí, por exemplo: de vez em quando faço uns exercícios de análise das coisas através de uma lógica livre, tentando enxergar o que tem por trás da impressão formatada que tenho das coisas. E nessas surgiu essa idéia. Talvez tenha tido à ver com a visão que eu tinha dos meus pais quando era criança, de que eles, por serem adultos, estavam isentos de certas coisas. Tem a ver com a perda dos rituais de passagem. Talvez a história devesse se chamar “Adultos não existem (mais)”, hehe. Mas não seria verdade também, acho que meu avô também era uma criança. Um bobo, cheio de manias e (tô imaginando o  Rafa Coutinho falando isso) coisas ‘lindamente’ não resolvidas.

Mas ó, essa história, como eu interpreto (deixando claro novamente que é possível “montar” ela de várias formas):

A moça está se maquiando, aparece o título falando sobre adultos, talvez ela seja meio nova, logo ela está transando, depois uma moça (que pode ser ela em outro momento já que o cabelo está comprido) está falando aparentemente de forma sentimental com um cara que está meio blasé, ela está falando sobre o assunto “família”, que por estar riscado, parece tentar esconder as palavras ao mesmo tempo que chama atenção pra elas exatamente por isso. De repente ela fala com esse cara sobre ele ter morrido. (Em que plano eles estão conversando? Sonho? Imaginação? Metáfora visual? A história era mentira? Ele na verdade está vivo? “Morreu” significa outra coisa? Esse cara realmente existiu um dia?) E ela continua o papo como se ele estivesse vivo. Ela comenta sobre divagações dela e volta pro lance de família, casamento. E depois volta a falar de algo que aconteceu e que ela ficou sabendo depois (a morte dele?), então ela faz uma última pergunta/proposta descrevendo como provavelmente era a vida deles e a carência que ela não conseguiu deixar de lado sobre a idéia do “casamento”.

8. E as decisões de estilo/narrativa, como os crops, aquela pintura riscada no terceiro quadro da segunda página, os vermes sobre o corpo, as palavras cortadas no meio da linha? Como você chegou nelas?

Então, faz tempo que não uso essa idéia de narrativa, mas tava pensando em tentar voltar a fazer isso de um jeito mais “controlado”. Na minha cabeça seria assim: as pessoas conversam e enquanto isso você vê imagens, que podem ser, o pensamento delas durante, ou metáforas visuais que somam informações ao “enigma”. Além disso, pra mim, esse corte de informações faz você perder o local onde a história está, como se ela se passasse num sonho, numa viagem lisérgica, num coma, numa meditação intensa, num limbo fora do tempo/espaço.

O quadro riscado tem a ver com outros elementos formais que vão ganhando significados, enfatizando o fato daquilo ser tinta no papel, a HQ ser um produto gráfico, um pensamento manipulado. O mesmo pro texto riscado. Sempre busco essas coisas que só serviriam em quadrinhos, como seria uma palavra riscada num balão na vida real? É tipo quando, sei lá, a Mônica, pega o balão e faz algo com ele como se ele tivesse uma forma física e não, fosse uma representação do som. (Porque quadrinhos não TÊM som!)

(Aviso aos leitores: a discussão sobre som nos quadrinhos é antiga e ficará para um outro post.)

9. Que autores – sejam ou não de quadrinhos – te influenciam a buscar esse tipo de narração? (Eu aindo acho que existe narrativa, e pensada) Só consigo me lembrar dessa fragmentação da narrativa, ou quebra-cabequização (gostei do “enigma”), no Chris Ware, embora não seja tão aparente quanto no seu trabalho.

Bem, eu tive um amigo chamado Eder Saragiotto Rodrigues que me apresentou várias das minhas influências. ele e outro amigo, Allan Ledo, faziam um quadrinho chamado Sangrando até morrer, que era muito mais abstrato q qualquer coisa que eu tenha feito. Aí que começou, acho. Tinha outro amigo, o Ganço, que tava sempre tentando fazer quadrinhos diferentes de tudo que existia, mesmo que ficassem brutalmente ilegíveis.

Depois comecei a ler Lispector, aquele livro Perto do coração selvagem, que é bizarro, e ficava me forçando a continuar, mesmo sem entender tudo. Desse fui pro Kafka, depois Joyce. O Godard causou impacto também, inesquecível aquele filme O desprezo. Tinha os livros de infância também que achei na casa do meu avô, no interior, tinha fábulas com bichos, desenhados realisticamente, que falavam e usavam roupas. Depois o Cortázar, John Cage, Nirvana, Of Montreal, tanta coisa. Nos quadrinhos não sei. Clowes, Charles Burns, o pessoal da Kramer’s Ergot me impressionou muito, gente tipo o CF, Marc Bell, Gary Painter, Elvis Studio, Matt Brinkman, Frank Santoro, Debbie Dreschler…

10. Destes nomes nos quadrinhos, você cita vários dos que se costuma agrupar como ‘primitivistas’: Panter liderando a turma, a Kramer’s Ergot como incentivadora, depois o CF, Matt Brinkman, aqui no Brasil o Gerlach etc. Como você vê esse movimento nos quadrinhos hoje? Ele me parece algo que quer, de um lado, rejeitar toda a estética do quadrinho mainstream de qualquer parte do mundo e, por outro, entregar-se a uma certa arrogância cínica que parece ser o discurso de quem sai de escola de arte hoje – ou pelo menos é o clichê dos artistas plásticos. Tenho que acrescentar que não vejo você como representante do movimento, pois você demonstra apuro técnico nos quadrinhos – coisa que os primitivistas, a meu ver, fazem questão de não demonstrar.

Ah, acho que cada um tem seu caminho. Acho, na verdade, que a técnica destes que você citou são muito mais complexas que aprender perspectiva, anatomia, luz e sombras. Eu acabo tendo algo a ver com isso porque foi assim que eu comecei, estudando pra ser um “desenhista de realidade”, até descobrir que meu traço era torto mesmo, meio tremido, impreciso, e nessa hora que fui reparar no traço do Charles Schulz e me identifiquei. Depois conheci o trabalho de pessoas como a Debbie Dreschler e desde então foi uma luta particular. Quebrar a perspectiva ou outras “regras” do desenho realista era um desafio muito maior do que aprender a fazer o “certo”. Como eu poderia “me comparar” com esses autores naifs, com linguagens simples, porém complexas no conceito, com design original e ainda manter o que eu já vinha fazendo há tantos anos?

E não concordo que eles tenham um discurso de escola de arte, até porque o figurativo já perdeu força no academicismo lá pelos anos 70, eu acho que é muito mais uma coisa da rua, à la Sonic Youth, arte pras massas, arte livre, arte punk, de quem “não sabe desenhar” mas usa outras áreas do cérebro pra criar composições visuais. Talvez tenha a ver com as sombras da caverna do Platão, o que será sombra e o que será “real” neste caso…? Acho que a arte é livre o bastante pra que tudo coexista sem valorações muito sérias. No boteco com os amigos tu fala mal de tudo mesmo, hehehe.

11. Talvez eu tenha me expressado mal. Duvido que caras como C.F., Gary Panter, Gerlach e outros NÃO tenham domínio técnico para “desenho de realidade”. O primitivismo é opção estética, opção por não mostrar o apuro técnico e voltar a um desenho mais primitivo. É uma exploração, como o cara que – não sei se estou citando uma pessoa ou se é um sentimento geral – tem anos de desenho e pintura mas quer regressar aos rabiscos de quando era criança. E creio que não dá pra negar que existe um movimento de quadrinistas tomando essa rota hoje em dia. Queria que você comentasse isso, e se este pensamento também tem relação com as tuas opções estéticas.

Entendi. Creio que tem, sim. Não colocaria dessa forma, apesar de ter muito a ver, o lance de regressar à infância. Eu colocaria como CHEGAR na infância. Acho que o que esses caras buscam, ao meu ver, e é o que eu tento buscar também, são novas formas de comunicação, por vezes mais limitadas, sim, mas acho que é algo que precisamos fazer por nós. Eu, ao menos, tenho essa necessidade, quase como que física. E eu, que dou aula pra crianças, fico impressionado com a visão rica delas, principalmente na faixa dos 7 anos, quando já tem todas as capacidades lógicas, mas ainda não “aprendeu” a conter conceitos, que vão (sic) moldar seu caráter e por conseguinte sua visão estética. É tipo olhar pra uma árvore e pensar: “meu deus, é um ser vivo que parece não se comunicar (ao menos não de forma óbvia pra nós), que cresce em direção ao céu, se alimenta do chão e cresce, tal qual o formato de um raio ou uma microvida, se espalhando e tomando ambientes.”. Ser adulto talvez seja esquecer algumas coisas. Esquecer talvez seja parar de perceber. Parar de aprender. Parar de querer aprender. Parar de querer entender e fixar-se no que é “claramente explicável”.

12. Para fechar, como funciona esse processo shuffle quando o roteiro é de outra pessoa, ou compartilhado? Como foi o caso de Campo em Branco, em que você trabalhou com Emilio Fraia?

Bem, daí temos uma outra “vertente”, porque as idéias rebatem. Mas acontece do Emilio me passar uma coisa e eu devolver bem diferente, e a partir disso ele tem outra idéia. Isso porque acho um saco desenhar cenas “inúteis” só pra dar um diálogo ou passar um tempo na história. Acabamos dando um ritmo bem dinâmico, onde tem sempre algo acontecendo, mesmo que não soe muito importante. Daí vem o trabalho depois de ver se o ritmo tá legal, se as cenas soam naturais.

Acho que esse é um ponto que vai ficar bem diferente da Cachalote, temos muito menos silêncio, páginas transitórias, ações detalhadas. Foi uma escolha estética, até um pouco baseada na idéia de fazermos diferente deles. Eles mandaram muito bem, e fizeram 300 páginas. O nosso vai ter metade disso. Espero que crie uma emoção equivalente, a seu modo.

Acho que o ritmo do filme do Scott Pilgrim tem um pouco a ver, mas no caso deles, vezes oito em comparação com o nosso. Hahaha.

*  você pode ver a versão deste texto que foi publicada no sítio da CIA DAS LETRAS.

Como estávamos em 2007

Algumas vezes, perdido no transe da produção de uma página, com as idéias se movendo em um grande número de direções ao mesmo tempo, algum insight clica na minha cabeça. Tenho por hábito anotá-lo, a lápis, na margem da própria página. Pode nem ter sentido: com o tempo essas coisas assumem significado quase autônomo.

Revisando um projeto recente, encontrei a frase “SE FAÇO, NÃO ERRO”.

Facilmente interpretada como imodéstia, tenta expressar, antes, o oposto disso: uma admissão do erro e dos equívocos potenciais como ferramenta básica na evolução/continuidade de qualquer obra. Percebo que era também uma tentativa de me auto-encorajar naquele projeto específico, que tinha estancado algumas vezes em bloqueios criativos que até então me eram inéditos.

Durante parte de meu período formativo como artista (que, aliás, ainda está longe de se encerrar), acreditei na habilidade técnica e, mais do que isso, na habilidade imediatamente identificável como tal como um elemento fundamental para a validade de qualquer obra artística.

No final da adolescência, fiz dois cursos de história em quadrinhos em Porto Alegre. Ambos eram focados no desenvolvimento da técnica narrativa e do vocabulário específico às histórias em quadrinhos, mais do que no puro aprimoramento de aspectos do desenho (que eram, de certa forma, um pré-requisito). Há de se considerar, também, que os cursos pareciam voltados aos aspirantes a quadrinista de potencial comercial mais palpável, interessados em elaborar páginas que servissem como portfólio junto às editoras americanas de quadrinhos de super-herói.

Minhas HQs levavam um período imenso para serem produzidas, e resultavam, invariavelmente, em coisas que me desagradavam. Basicamente, não possuía uma idéia concreta das ferramentas que deveria utilizar e, entre meus colegas de curso, minha ambição parecia incomum – o que é uma maneira redutiva de dizer que era um moleque arrogante e absolutamente alheio às minhas limitações, com uma noção mais do que inflada do próprio talento.

(Hmm, talvez pouco tenha mudado?)

Não fazia idéia, por exemplo, da relação entre o tamanho da página original e o resultado impresso. Como utilizava canetas de arquiteto para entintar os desenhos, o resultado era um traço quebradiço e que perdia 90% do impacto que poderia vir a ter quando reduzido.

Minhas aspirações nessa época eram bastante específicas e nada humildes: queria um traço que tivesse a fluidez e simplicidade de um Mazucchelli, e uma complexidade narrativa e emocional singular – toda minha, sem paralelos.  Em outras palavras, acreditava que só o fato de ‘entender’ e apreciar o traço de Mazzucchelli e ter lido alguns livros de literatura transgressiva seriam o suficiente para que produzisse quadrinhos de relevância imortal.

Como estávamos em 1998

No segundo dos cursos (em 1998, se não falha a memória) Roger Cruz foi o convidado especial da aula de encerramento. Roger olhou minhas páginas e observou que a perspectiva em todos cenários era terrível, e que esse era um detalhe no qual tinha que me empenhar muito, muito mais. Foi educado e construtivo nas observações, mas se tivesse me acertado um tijolaço no peito, teria tido o mesmo efeito. Isso porque, antes mesmo de mostrar as páginas, já sabia que ele comentaria exatamente esse problema, entre tantos outros – e também que ele tinha razão.

Alguns quadrinistas têm grande dificuldade em olhar para trás e analisar aquilo que fizeram anteriormente. Conseguem enxergar apenas os erros evidentes, as escolhas ‘equivocadas’ expressas no resultado, amplamente inconsistente com a ambição inicial do projeto.

Passados tantos anos, entendo que não possuía algo fundamental: a capacidade de me relacionar com o abismo existente entre o planejamento de uma obra e o resultado que de fato é obtido. O que é amplamente subjetivo, sobretudo se considerarmos o leque virtualmente ilimitado de interpretação que uma história em quadrinhos pode vir a ter quando finalmente exposta às diferentes realidades/predileções do público leitor.

Orgulho excessivo é o sintoma mais claro dessa tentativa clara de negação do vão existente entre concepção e resultado. Certamente, o que mais me atormentava nessas primeiras tentativas nos quadrinhos. Como uma idéia tão radical, tão… pura poderia resultar em quadrinhos medianos? Hoje vejo que esse orgulho, essa alienação frente ao óbvio gritante, não é algo exatamente incomum entre quadrinistas iniciantes, ainda mais tendo em vista o quão solipsista a experiência de imersão nessa linguagem pode ser.

Dado o tempo e o esforço envolvidos na criação de histórias tão curtas, tão insignificantes, que não agradavam nem a mim nem às poucas pessoas a quem as mostrei, concluí que não tinha em mim foco suficiente para criar o grande épico que ambicionava. Vários fatores de ordem pessoal contribuíram para minha deserção, mas, após apenas duas HQs curtas (uma de 8 e outra de 11 páginas, ambas produzidas no decorrer de mais ou menos seis meses cada) a sensação de inadequação se tornou grande demais para que continuasse tentando.

Desisti de fazer quadrinhos quando tinha 18 anos, e não voltei a desenhar ou fazer o layout de uma página até meados de 2007, já com 26 anos de idade, e só retomei o desenho como rotina diária aos 28 anos.

"The Death Ray", Dan Clowes

Durante esse tempo todo, mesmo o ato de ler histórias em quadrinhos se tornou um pouco incômodo. Às vezes retornava às HQs de modo esporádico, mas sempre sentia como se estivesse engajado em um tipo de voyeurismo incômodo – afinal eu tinha desistido, arregado, não é mesmo?  Tinha escolhido me tornar um diletante, e isso tinha conspurcado até mesmo a função dos quadrinhos como meu playground secreto. A essa altura tinha certeza que seria um escritor de livros ‘sérios’.

No entanto, tomar contato com os quadrinhos de Dan Clowes e Paul Pope, já em idade adulta, foi revelador: rapidamente entendi que a mídia tinha dado um salto quântico tanto em termos de ambição literária (no caso de Clowes) quanto de arrojo visual (no caso de Pope) desde minhas últimas espiadelas. Alimentando o impulso voyeurístico incontrolável, me tornei novamente um leitor de quadrinhos ‘profissional’.

"100%", Paul Pope

Pouco tempo depois, outro fato importante ocorreu: descobri o trabalho de Fabio Zimbres, Gary Panter e Raymond Pettibon.

Ver o emprego com intuito narrativo de traços tão destoantes de minha concepção prévia de ‘habilidade’ causou uma profunda mudança na minha maneira de entender o potencial e a expressividade dos quadrinhos como linguagem.

Fabio Zimbres

Embora possuam diferenças estilísticas evidentes, alguns elementos em comum alinham o trabalho de Zimbres, Panter e Pettibon, notadamente um apreço pelo que o consenso aponta como imperfeição, pela crueza e pelo emprego inventivo – arrisco dizer otimizador – de elementos dissonantes ou deliberadamente anti-canônicos da linguagem do cartum, da narrativa seqüencial e mesmo do design.

Naïf, punk, ‘ruim’: já vi o trabalho desses artistas descrito em termos bem pouco lisonjeiros. No entanto, por um motivo que hoje me parece equivocado (“Talvez eu seja capaz de desenhar assim também!”), estudei o trabalho dos três com muito cuidado.

Gary Panter

Talvez tenha sido mais o fato de entender em algum nível que esses artistas estavam se expondo ao ridículo, arriscando criar um vocabulário próprio que lhes satisfizesse – não importando o quão crasso isso pudesse parecer a terceiros – o verdadeiro elemento de libertação e estímulo.

É lugar comum no aprendizado de artes virtuais (sobretudo em quadrinhos) que você deve aprender as regras antes de tentar subvertê-las.

Embora instrução possa ser útil, acredito também que não é algo indispensável. Se você está tentando fazer algo continuamente, mesmo que não se valha de um conjunto de regras claras para isso, um método está sendo desenvolvido, independente do quão atípico ou não-acadêmico ele seja.

Raymond Pettibon

Em 2007, com finanças equilibradas e tempo de sobra nas mãos, arrisquei desenhar novamente. Eram tentativas básicas de emular traços que entendia como simplórios.

Um recurso bastante útil foi excluir os esboços a lápis, aprendidos e estimulados nos cursos de quadrinhos, em favor de um imediatismo maior: desenhava direto com tinta (utilizando bico de pena, caneta de arquiteto ou mesmo pincel). Basicamente, um intenso regime de desenho automático. Em pouco tempo, percebi que os desenhos de fato resultavam em algo simplório, mas frenético e estimulante o suficiente para que continuasse tentando. Rapidamente ficou claro que Zimbres, Panter e Pettibon tinham em seu conhecimento muitas coisas das quais sequer suspeitava – mas a essa altura isso já não importava tanto assim; me sentia confortável em minha recém-descoberta pele de artista.

Repito: um conjunto de técnicas apreciáveis ou mesmo ‘reconhecidas’ não é, de modo algum, imprescindível para criar. Afinal, com visão cristalina o suficiente, você sempre pode se mover pela idéia de que é mais válido fracassar segundo seus próprios parâmetros do que suceder pelos de outros.

O desenvolvimento de um vocabulário intuitivo, ancorado nas minhas escassas habilidades gráficas, me abasteceu com serenidade suficiente para continuar tentando.

Agora os desenhos ditavam a história, ao invés do caminho inverso que me havia sido ensinado. Se isso significava desenhar histórias com gente feia e aparentemente inumana, situadas em ambientes tão minimamente providos com cenários que pareciam palcos de teatro vazios – bem, esse era o preço a pagar pela displicência de anos sem prática.

Em processo contínuo, senti dar um passo adiante: conciliei-me com o fato de que os desenhos que surgiam, independente do quão toscos ou desequilibrados fossem, eram uma manifestação clara do ímpeto de desenhar a qualquer custo. E isso era incrivelmente mais satisfatório do que estar aprisionado a qualquer tipo de técnica.

Como estávamos em 2009

A imperfeição do traço e o aspecto aparentemente prestes a implodir dos personagens era um retrato fiel do quão frágil eram as bases que sustentavam minha visão naquele momento específico. Gradualmente, momentos de absoluta clareza começaram a ocorrer durante o processo de criação, e desenhar passou a assumir o aspecto de uma forma de profunda meditação e reflexão – o confinamento da página como um verdadeiro espaço de prática zen.

Se, como Pedro Franz costuma dizer, toda escolha estética é também uma escolha ética, esse foi o momento divisor, onde situei o centro gravitacional das minhas escolhas. O monólogo interno foi mais ou menos esse: “Isso é o que sei fazer; não tenho tempo para aprender ou mesmo reaprender tudo; preciso produzir; vou adiante; talvez todos achem um lixo; posso dizer a mim mesmo, e sem precisar mentir ou contorcer a lógica, que não acho um lixo; na verdade, acho bom o suficiente; estou disposto a pagar o preço.”

Como estávamos em 2010

Olhando as duas histórias que fiz por volta dos 16 ou 17 anos, tudo que enxergo é a amargura precoce de alguém que não conseguiu entender que aceitação e resignação não são a mesma coisa. Simplesmente me resignei ao fato de que não poderia fazer quadrinhos, nunca e de forma alguma.

Quando retomei a prática do desenho após tanto tempo, aprendi a aceitar o fato de que não era tão bom quanto ambicionava ser, que tinha perdido um bocado de tempo envolvido com uma idéia de plasticidade que mais tarde se revelou superficial. Mais do que isso, sentia que havia um precedente estético para tudo o que fazia e que, convenhamos, meus desenhos ainda eram tecnicamente mais apurados que os de Rob Liefeld (de cujo estilo na verdade gosto, não importando que ele não saiba desenhar pés humanos).

Se aquelas longínquas histórias adolescentes me causam desconforto, não é porque o desenho me parece medíocre (como não gostar de desenhos ‘ruins’?), mas sim porque a incapacidade de aceitar esse fato e tentar extrair o melhor do que realmente era capaz de fazer grita em cada quadro, cada tentativa de criar uma composição elaborada além de minhas reais possibilidades.

Já analisando tudo que fiz desde que voltei a me dedicar ao desenho, há um brilho estranho, uma certa arrogância de desafiar a folha em branco que parece solapar as imperfeições e inconsistências, abrindo espaço para uma expressão, na pior das hipóteses, autêntica o suficiente para validar o esforço depreendido.

Uma vez que a idéia deixa sua cabeça e começa a tomar forma na página, ela já está comprometida em diversos níveis. A característica mais cara ao artista é a obsessão, e não a técnica. (Embora tenha que conceder que a técnica, em geral, venha a reboque da obsessão.)

De modo que fazer é a única coisa que de fato importa. Durante a criação da página, nada existe fora do momento.

É tão simples: saia ‘bom’ ou saia ‘ruim’ – se faço, não erro.

Como estamos em 2011