Feira Plana 2013

Feira Plana 2013

Grosso modo não existe uma característica determinante para o que seja ‘quadrinho autoral’. Se eu chegasse a uma conclusão definitiva, certamente veria muitos dos meus colegas discordando de mim. Eu poderia tentar simplificar dizendo que é ‘quadrinho produzido por um autor, independente de escolhas mercadológicas‘ ou quem sabe ‘quadrinhos produzidos de forma independente, de tiragem muito mais baixa que a usual das editoras ‘oficiais”, ainda assim acho que este supunhetismo em determinar uma área exata só levaria o artigo a limitar o assunto, certo? Trabalho sujo por natureza. Eu sou suspeito ao falar sobre quadrinhos, leio (ou olho) e produzo os meus próprios desde antes de saber ler. Decidi há pouco tempo que este seria o meu meio de trabalho artístico (não confundir com ‘meio de ganhar dinheiro’). Mesmo me interessando por outros tipos de arte, decidi que é este que quero dedicar tempo e estudo.

Dentro da minha visão de arte, o quadrinho autoral, talvez por ser mais recente, é acidentalmente despretensioso, e ainda assim mantém um potencial para criar deslumbramento e reflexão tal qual outras modalidades da arte, que por vezes não tem tamanho contato com a cultura popular sem soar folclórico e/ou datado (isso não é necessariamente uma crítica, defendo a idéia do espaço para tudo e todos). E já disse antes, gosto da coisa do quadrinho ser um meio por si só, não uma sub-literatura ou um sub-filme.

Dito isso, vale a pena frisar que este texto não necessariamente reflete a opinião ou gostos dos autores com os quais fiz uma entrevista (logo abaixo). Este é um artigo autoral, no qual uso minha vivência e suposta percepção para sugerir um caminho a quem possa interessar. Ele não é definitivo nem pra mim mesmo. Mas me ajuda a pensar. Talvez eu seja, no fim, um cara que gosta de listas.

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Será que todo quadrinho autoral pode ser chamado de “alternativo” por sua natureza paralela à mídia oficial? (que é muito mais comentada, divulgada, pesquisada, lembrada como referência quando se fala em quadrinho, etc). Talvez alguns amigos estejam certos, e a definição pudesse ser a morte da Esfinge. Tipo “Entretanto, foda-se”.

Não sei se foi Crumb ou alguém da ZAP, mas eu vejo nuances no Winsor McCay, no Charles Schultz, no Chuck Jones e no Will Eisner (óbvio) etc que são anteriores mas já tinham algo diferente. Trabalhos denso e sinceros, por acaso através de um meio de reprodução rápida, linguagem popular e de alcance global e teoricamente simplistas (mas daí rende outra discussão qd se pensa a complexa e propositalmente sutil rede de relações que o minimalismo cria com a arte, dita clássica (no caso dos alternativos, claro, o alcance tornou-se global numa esfera maior de tempo).

Daí tem o Dan O’Neill e os Dadas, Beatniks, e o Daniel Clowes, e o CF e o Mat Brinkman, e o Charles Burns, a Animal, a Chiclete com Banana, Fabio Zimbres, Jaca, Rafa Silveira e o Almanaque Entropya e daí aquele monte de editorazinha bacana tipo a Highwater Books cheia de doidão que, se você procurar no Google vai achar muito mais sobre seus projetos musicais vanguarda pé-sujo concreto industrial psicodélico e por aí que quadrinhos. Mas afinal quem lê quadrinhos?

No meio de eventos como Gibicon (CWB), Comicon (RJ), Fiq (BH), Quantacon (SP) sempre me parece que a barraquinha dos independentes soa um pouco deslocada. Como se fossem invasores, mesmo que com as melhores intenções. Será que não viemos todos do mesmo saco? Não eram todos moleques que um dia liam os quadrinhos da Abril e da Globo? Eventos como a Feira Plana (MIS-SP) e a Tijuana (Galeria Vermelha-SP) se mostraram situacões inusitadas.

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Me identifico, pessoalmente com alguns autores/editoras/selos e resolvi fazer uma entrevista com eles. Fazem parte deste grupo a SAMBA, a BELELÉU, a PREGO, GOLDEN SHOWER, VIBE TRONXA e outros distribuidores ainda mais independentes como PEDRO FRANZ, ANDRÉ VALENTE, ODYR. E  o “patrão” da casa, ídolo e organizador da visionária coletânea MIL: RAFA COUTINHO com seu selo/loja CACHALOTE/NARVAL, ele justamente filho do Homem é a ponte entre a geração Grampá/Moon e Bá e esta nova safra. Difícil definir todos estes… ‘editora’, ‘revista’ ou ‘selo? Não sei direito o que são, talvez eles mesmos não saibam, talvez não importe.

Bem, e que fique claro que estes NÃO são os únicos quadrinistas independentes do Brasil, esta foi minha eleção com base na afinidade. Eu sabia que partindo deste ponto seriam citados vários outros autores que eu admiro. Infelizmente alguns dos citados acima não conseguiram responder essa entrevista, mas eles estão muito bem representados…….  Aproveito aliás pra lançar oficialmente meu selo aqui, ROAX e responder minhas próprias perguntas.

O mais bonito pra mim, que eu queria enfatizar com esse texto, é o fato deste “grupo” de pessoas morar em estados diferentes e ter tido algum tipo de vivência semelhante, que levou a nos conhecermos e admirarmos. Pontos distantes tal qual estrelas formando constelações, salvaguardadas quaisquer ridículas pretensões relacionadas ao conceito de estrelismos. Mate todos os rockstares etc.

Eu me enrolei pra montar essa entrevista, DESCULPA, tinha enviado pra eles no final de 2012, então fiz algumas retificações quando necessário:

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COMO COMEÇOU ESSE LANCE DE PUBLICAÇÕES INDEPENDENTES PRA VOCÊ(S)? ATÉ ONDE FOI ATÉ AGORA?

Coutinho (Cachalote/Narval): Começou no começo mesmo, nas minha publicações de quadrinhos. Participei de uma revista chamada Sociedade Radioativa, aqui de Sampa, com o Caeto, Ulisses Garcez, Daniel Gisé, entre outros. Eles já tocavam a revista há uns anos, e comecei como colaborador. Aí passei pra frente editorial, e peguei gosto. Fazer lançamentos, cuidar da impressão, divulgar, vender. É muito gratificante pra quem gosta.

Stêvz (Beleléu): A Beleléu começou como uma revista em 2009. Tiramos uma grana do nosso próprio bolso para bancar a impressão, mas não tínhamos maiores pretensões além de fazer uma revista foda. O nome agradou, o conteúdo também. Fomos tocando um blog com atualizações inconstantes e, como apareceram alguns trabalhos e a vida seguiu, acabamos adiando o lançamento do segundo número. No fim de 2011, eu havia terminado o livro Aparecida Blues, com roteiro do Biu, e pareceu lógico lançá-lo pela Beleléu, transformando a empreitada num selo. Este ano estávamos mais focados nesse aspecto de estruturação, para conseguir manter a coisa funcionando enquanto selo editorial, publicando outros títulos e começando um catálogo próprio. No momento, temos 5 livros publicados, e outros engatilhados para o começo do ano.

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Acioli, Berger e Yida (Gibi Gibi): Nós queriamos fazer um zine já fazia um tempo, mas no meio da correria nunca realmente começavamos. Alguns de nós já tinhamos histórias que não haviam sido publicadas, então resolvemos fazer a nossa revista, por conta própria, e chamar os caras que a gente queria por na roda.
Terminamos a nossa primeira edição em outubro de 2011 bem na epoca da RioComicon e definimos um deadline que nos permitisse divulgar fora de SP. Imprimimos 200 exemplares botamos nas malas e pá!
Rolou uma indicação pro prêmio HQMix de melhor zine coletiva.
A segunda edição virá tecnicamente bem mais resolvida, preenchida e talecoisa. (A segunda edição foi lançada na FEIRA PLANA em SP, e está mesmo muito além da primeira edição)

DW (Roax): Fiz zines na adolescência, mas acho que a volta do desejo com certeza tem a ver com ver esse povo todo produzindo.

Alex (Prego): Comecei com um pequeno selo/distro voltado pra bandas de hardcore/powerviolence no início dos anos 2000. A partir daí comecei a fazer cartazes e algumas artes para bandas me envolvendo mais com o lance de artes gráficas e fanzines. Diagramei e montei alguns zines de amigos e depois resolvi lançar a Prego em 2007, durante o curso de artes visuais. De lá pra cá organizei diversos eventos de lançamento, viajei pra muitas cidades no Brasil (algumas no exterior também), conheci muita gente boa e inspiradora.

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Cyn(Golden Shower): Começou há alguns anos quando comecei a fazer quadrinhos e fiz um blog. Eu esperava que esse blog me desse alguma sensação de ah, agora sou cartunista! Mas não deu… até por que eu sou péssima mantedora de blogs.  Então achei que se eu fizesse uma revista impressa e meus quadrinhos saíssem em papel de verdade que eu pudesse segurar na mão, eu me sentiria uma cartunista… não funcionou, hehehe, mas através dessa revista conheci vários cartunistas brilhantes, o que faziam, quem são então valeu muito a pena. Até agora publiquei duas edições da Golden Shower e uma da Bananas, que fiz com a Chiquinha. Eu fiquei meio de saco cheio da Golden e de ficar vendo quadrinhos (muitas vezes horríveis) sobre sexo então agora ainda estou pensando no que vou querer fazer… mas acho que alguma coisa só minha e não coletiva.

Gerlach (Vibe Tronxa): Começou com a ideia de dar uma cara mais ou menos unificada pros meus lançamentos solo, e de me forçar a pensar como um editor, criar um plano de divulgação e vendas, já que essa parece ser a opção mais sensível e sensata para os autores no momento. Até agora foram lançados uns poucos trabalhos (impressos profissionalmente ou xerocados), e montei uma página no Facebook para o selo, com o intuito de centralizar a divulgação e formalizar o fato de que é algo que existe e demanda um clique de quem quer que seja para obter mais informações sobre. 

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ONDE FICA SEU SELO/EDITORA? ALIÁS, O QUE É SEU NÚCLEO (RESPONDA ESSA ÚLTIMA SE ACHAR QUE VALE A PENA).

Gibi Gibi: Dentro do cu de um mendigo.

Gibi Gibi #2

Gibi Gibi #2

Cyn (Golden Shower): A base do meu selo é a minha bunda e onde ela está sentada no momento, hehehe. Já fiz revistas com pessoas exclusivamente pela internet ou indo até Sana Teresa com meu laptop pra trabalhar com meu amigo que diagramador. Mas eu trabalho na Toscographics, talvez lá seja a base então.

Alex (Prego): Vila Velha – ES. É aqui que temos um estúdio (Prego Estúdio) e uma loja (Prego – Espaço de Arte). Divido as atividades com meu amigo Guido Imbroisi, que publica na Prego desde o primeiro número. No estúdio fazemos a parte de criação e também a parte burocrática. Na loja vendemos materiais e fazemos eventos/exposições.

Gerlach (Vibe Tronxa): A Vibe Tronxa no momento é sediada em São Leopoldo – RS, minha cidade natal e onde atualmente resido. Tenho contato esporádico com outros quadrinistas da região e alguns amigos que lidam com outros campos de expressão artística, mas no geral o ‘núcleo’ sou eu mesmo, com a participação eventual e preciosa de co-conspiradores em aspectos sobretudo logísticos na produção dos gibis.

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DW (Roax): Sou de Curitiba, mas moro há 4 anos em SP, agora pertinho do estúdio do Rafa.

Coutinho (Cachalote/Narval): Fica na Pompéia, em São Paulo. Somos um grande estúdio com muitos artistas que dividem. Uma das salas é alugada pela Narval, que é basicamente composta de duas pessoas, eu e o André Lima, meu parceiro. Aí temos colaboradores em outros lugares. A Vanessa Lima que diagrama e fecha os arquivos de tudo que a gente faz, por exemplo, que trabalha de casa, ou o Daniel que cuida do site, o Gabriel Gueiros, que dá uma baita mão em videos promocionais.

Stêvz (Beleléu): Temos uma sala nos estúdios da gloriosa Toscographics, em Copacabana, que já está ficando pequena para tantas caixas de livros. Além de nós mesmos, acaba havendo uma interação com a Tosco e seus frequentadores. O livro do Pablo Carranza acho que acabou existindo por causa disso, por estarmos ali perto, nos vermos sempre. Sempre acaba sobrando algum trabalho também, para pagar as contas.

Valente (Fabio Zines):

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QUE AUTORES PUBLICAM/PUBLICARAM/VÃO PUBLICAR COM VOCÊ(S)?

Cyn (Golden Shower): Essa lista é grande, heim? Ah, sim, pelo meu SELO! Ah, bom, dentro da coletânea da Golden, muitos, mas na verdade eu não tenho um selo que nem a Beleléu ou a Samba, né?

Coutinho (Cachalote/Narval): A lista é grande, porque trabalhamos com projetos meio coletivos. Gabriel Góes, Daniel Gisé, DW, Mateus Acioli, Heitor Yida, Eduardo Medeiros, Diego Gerlach, André Kitagawa, Pedro Franz, Tiago El Cerdo, Rafael Sica, Berliac, Marcelo Costa… tô esquecendo de gente, mas vendemos algumas coisas de outros também, grupos parceiros, como a Beleléu do Rio de Janeiro, posters do Grampá, as revistas do Amilcar. Esse ano têm mais uma MIL (projeto de histórias mudas) do Laerte, Luisa Doria e Rafael Sica, além de algo com o Magenta King, uma Gazzara (HQs em formato poster A2) do Magno Costa e outros tantos.

Alex (Prego): A lista é grande, já deve estar beirando uns 100 autores desde a primeira Prego. Mas a tendência é diminuir o número de colaboradores e aumentar o número de publicações diferentes.

Stêvz (Beleléu): Muita gente, se considerarmos que dois dos nossos livros são publicações coletivas (Monstros e Calendário Pindura). Gostamos da idéia de publicar outros autores, além de nós mesmos. Tem muita coisa incrível sendo feita por aí, e nem tudo cabe nas propostas das editoras tradicionais. Cada vez mais as pessoas têm nos procurado também, mas ainda somos um empreendimento muito pequeno e humilde para corresponder a algumas dessas expectativas. Por isso, fazemos as coisas no nosso próprio tempo (e podemos nos dar a esse luxo, por enquanto).

DW (Roax): Bom, é cedo pra dizer, por hora só eu mesmo. Mas tenho em mente uma coletânea só com garotas.

Gibi Gibi: André Berger, Vandão Miranda, Diego Gerlach, Diogo Poelzig, MEDO, Bruno Di Chico, Michael Deforge, André Valente, Sam Alden, Mou, mais virão… Fora o Rob Liefield que estamos negociando desde a primeira edição.

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Gerlach (Vibe Tronxa): Até o momento foram publicadas só HQs minhas, mas a ideia é publicar antologias, colaborações e mesmo parcerias de publicação, onde eu atue apenas como editor/curador/facilitador para trabalhos de outros quadrinistas.

Valente (Fabio Zines):

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FALA SOBRE ESSE LANCE DE UMA ESPÉCIE DE “CENA”. A GALERA, CADA UM DE UM ESTADO, SE ENCONTRA NOS EVENTOS: IDÉIAS, PAPOS MIL, AVENTURAS NA MADRUGADA…

Coutinho (Cachalote/Narval): Existe mesmo. São amigos, gente que conversa e mesma língua criativa, têm gostos similares, um tipo de filosofia de trabalho mais independente mesmo, gosta de se alto publicar. Nos encontramos de vez em quando, e é sempre bom, é como encontrar amigos de uma fraternidade escusa. Quadrinhos é um troço bem solitário e exigente, é bom encontrar gente que divide isso, dá a sensação de fazer parte de algo maior mesmo. Sem contar que são caras incríveis, cada um do seu jeito.

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 Stêvz (Beleléu): Sim, existe uma cena, e ela é relativamente pequena aqui no Rio. Vemos sempre as mesmas pessoas, na sua maioria autores, mas há entusiastas que acompanham os lançamentos e a produção local. A cena de zines parece ter voltado com força, de publicações realmente artesanais. Na verdade, mesmo sendo pequena, não conseguimos acompanhar tudo.

Gerlach (Vibe Tronxa): Percebo um número sempre crescente de autores de HQs com ideias mais ou menos consistentes entre si, o que gera uma admiração mútua, um senso de competição saudável, e uma teia de contatos e facilitações informais. A ampla penetração da internet hoje é de caráter decisivo para essa cena, que é necessariamente descentralizada, considerando as dimensões continentais do Brasil (em conjunção com o público leitor relativamente escasso para esse tipo de trabalho). Com uma divulgação integrada e algumas ideias em comum perpassando diferentes moldes de publicação e diferentes vertentes do quadrinho nacional, a tendência é que, através da elevação contínua do nível dessas publicações, a visibilidade e o público para as mesmas cresça. Nas convenções, esse pessoal costuma dividir stands e apresentar os trabalhos uns dos outros para o público. Além de botar o papo em dia e tramar a revolução, é claro.

Cyn (Golden Shower): Eu não fui nos últimos eventos, ando meio reclusa. Cartunistas são esquisitos, são pessoas que não tem o tipo de competição ou ego que você vê em outras “cenas”, (ou pelo menos não eram) e geralmente têm vários interesses diferentes então misturam-se os temas meio punheta do próprio ofício com livros, música, games (urgh), filmes e outras formas de arte mais “nobres”.

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 Tiago (Beleléu): Cresceu muito esta cena dos independentes, dos zines, das publicações menores. Dá para ver e bem claro, estes dois caminhos que a produção no Brasil esta tomando. O das editoras e os independentes. Além dos grandes festivais que cresceram bastante, esta surgindo as pequenas feirinhas e lançamentos. E constantes. E além de ser o evento para lançar as novidades, para apresentar ao público, acaba sendo a forma de reunir esta galera que vem produzindo. Estamos sempre em contato uns com os outros, em trocas de emails e em nossa página dos Quadrinhos Autorais no Facebook.

DW (Roax): São tantas emoções, aqueles showzinhos pra 10 pessoas em BH… curti muito também o movimento em Curitiba na última Gibicon, de onde veio o Tiras de Merda…

Gibi Gibi: Acontece que o pessoal que se identifica vai atrás, vasculha na internet, vai nas lojas especializadas, e por ela os lançamentos, festinhas, aventuras e guere-gueres são combinados e daí vai.

Alex (Prego): Em 2007, quando lancei a Prego #1, resolvi viajar para BH para o FIQ. Eu só tinha essa publicação e no mesmo stand estava a galera da Tarja Preta, Quase e Sociedade Radioativa, que já tinham várias edições anteriores. Foi bem legal esse primeiro encontro, pois a galera dos quadrinhos independentes me recebeu muito bem e consegui vender todas as revistas que levei, além de conhecer pessoalmente vários cartunistas e artistas que admiro. Algumas dessas publicações foram se desfazendo e foram surgindo outras no lugar que deram um gás novo às publicações nacionais, como a Samba e a Beleléu.

Valente (Fabio Zines):

04ALGUMA HISTÓRIA DESSES ENCONTROS DEVERIA VIR A PÚBLICO?

Alex (Prego): Prefiro não comentar sobre isso…

Gibi Gibi: Nada a declarar

Stêvz (Beleléu): Melhor não.

Cyn (Golden Shower): (Isso aqui é pra sair num livro, DW? É alguma coisa que muita gente vá ler? Blé, que pergunta, entrevistas com quadrinistas independentes, não é exatamente a Caras, né?hehehe – corta isso!) Bom, uma história que eu gosto muito é do Lafa invadindo o palco na FIQ retrasada quando o Stevz tava tocando. Acho muito indicativo do excesso de amor genuíno que todo mundo ficou sentindo quando se conheceu.

Tiago (Beleléu): Um dia ainda vou publicar a Caras dos quadrinhos. Com fotos de flagrantes e estas histórias e fofoquinhas,eheheh. Ou quem sabe um blog.

Gerlach (Vibe Tronxa): No meu caso, acho que o ponto de convergência inicial (e decisivo) foi a Rio Comicon de 2010, onde tomei contato com o pessoal da Beleléu, Samba, Golden Shower, Rafa Coutinho (que depois fundaria a Narval Comix) e percebi que afinal de contas não estava sozinho na caminhada.

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Coutinho (Cachalote/Narval): Não acontece uma orgia secreta quando nos encontramos, não tem nada demais. Geralmente é beber e papear, fazer planos, choramingar, rir. Teve o mendigão da última Comicon do Rio que ameaçou bater em todo mundo no meio da madrugada, e a hq paralela que fizeram com um personagem de uma franquia de empadinhas que lançou essa revistinha para vender seu produto. Nêgo não perdoou, e fizeram ali mesmo uma tiragem pirata da revistinha que era de cagar de rir. Se não me engano chamava PEBADINHO. Dava tudo pra ter uma cópia disso.

DW (Roax): Leia os quadrinhos….

Valente (Fabio Zines): 

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O QUE PENSA DESSA IDÉIA DE CENA INDEPENDENTE? OU PREFERE NÃO PENSAR?

Cyn (Golden Shower): Eu acho muito legal você com um pouco de dinheiro e disposição poder imprimir o seu livro ou sua revista. Adoro o objeto-livro  e tiragens menores permitem que você mesmo possa criar o que quiser. Se você fizer zines então, pode criar umas coisas artesanais, serigrafias, etc. Nunca fiz uma coisa assim, mas eu acho que é aí que existe a maior jogada dos independentes e tenho umas idéias que ainda quero fazer pra FIQ nessa onda.

Alex (Prego): A cada dia surge uma publicação nova e novos artistas. Dentro dos independentes mesmo existem algumas divisões que são definidas pelo próprio estilo dos trabalhos ou por algum grau de afinidade entre os colaboradores. Esse lance de cena ainda é algo muito vago. Mas sei que existem pessoas pensando coisas muito próximas em lugares diferentes do Brasil (e do mundo).

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Gerlach (Vibe Tronxa): A ‘cena’ independente, até onde entendo, surgiu de uma necessidade orgânica, que demandava uma solução prática. Há uma nova leva de quadrinistas e quadrinhos brasileiros que não considera como opção esperar seu trabalho ser descoberto e veiculado por editoras estabelecidas. Isso acabou se alinhando com um relativo barateamento dos custos de impressão, e pela primeira vez vejo um número expressivo de autores se auto-publicando com relativa freqüência. Perceba que estou falando exclusivamente sobre quadrinhos como mídia impressa. Se você partir para os quadrinhos publicados na rede, o leque se expande muito mais, mas aí sinto que não tenho propriedade para falar a respeito.

DW (Roax): Confesso que minhas intenções não são tão mercadológicas. Resolvi me dar a esse luxo porque senão acabo pensando demais em coisas que não quero. Mas é lindo ver o amor das pessoas, dos autores e também do público.

Stêvz (Beleléu): Precisamos pensar. Os independentes procuram se ajudar, dentro das suas afinidades. Trocamos livros, compramos uns dos outros e divulgamos o material ou os eventos alheios, na medida do possível. Não apenas por alguma espécie de sentimento de classe, mas por realmente admirar o que vem sendo feito e publicado. Mas o país é bem grande para conhecermos tudo ou todos, isso acaba sendo mais importante dentro da própria cidade de cada grupo, acho.

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Tiago (Beleléu): Ainda nos toma muito tempo, dá muito trabalho. É dificil conseguir espaço nas mídias tradicionais. Deixamos um pouco de nosso tempo nas mesas para manter a coisa funcionando. É um mercado com seus vícios e panelas. Mas não podemos ficar reclamando. O resultado vem com a produção. Não temos planos de transformar nosso selo em uma mega editora. Queremos manter esta aspecto artesanal. Mas sem esta idéia de produto tosco. Grandes poderes trazem grandes responsabilidades.

Coutinho (Cacahlote/Narval): Penso até demais. Parei de fazer de brincadeira há uns anos atrás, quando montei a empresa e resolvi dedicar boa parte da minha vida a publicar e viabilizar essa história de quadrinhos independentes no Brasil. Mas não é algo que se resolva de uma hora pra outra, é preciso ir com calma. Muito disso tem a ver com a economia do país, da cultura de quadrinhos se disseminar, de mais gente se interessar. Faço a minha parte porque acredito que na matemática é melhor ser independente, e é possível construir algo duradouro e estruturado no momento que vivemos. Mas sei que ainda não é um cenário maravilhoso, exige muito trabalho e comprometimento. Estamos em um período de construção de base, que demora mesmo. Vamos com calma, que acho que tá bom demais.

Gibi Gibi: Não pensar.

Valente (Fabio Zines): 

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PRA QUE OUTRAS DIREÇÕES ALÉM DAS PUBLICAÇõES ISSO PODE LEVAR? ALGUMA IDÉIA MIRABOLANTE? (REALIZÁVEL, MAS MESMO QUE EM NÍVEL DE SONHO OU PLANEJAMENTO AINDA?)

 Gerlach (Vibe Tronxa): Na real não sei. Prefiro acreditar que é algo que veio para ficar, mas sem querer soar pessimista, não me surpreenderia se houvesse uma retração no número de publicações mais adiante. Os custos de impressão, como mencionado, diminuíram, o que não significa que seja exatamente barato publicar, nem que o retorno financeiro seja certo e muito menos a curto prazo. Criar e gerir ao mesmo tempo em geral é bem desgastante, e me parece que ainda estamos nos estágios iniciais desse novo paradigma de publicação, não convém ufanismo exagerado. Uma série de problemas persiste, os principais sendo, a meu ver: a dificuldade de distribuir as obras em ampla escala sem que isso torne o preço final dos gibis um acinte ao público; e o já mencionado público leitor reduzido (levando em conta a imensa população do país e o tal público ‘potencial’). A maioria esmagadora dos autores de agora não subsiste de seu trabalho com quadrinhos, tendo de recorrer a outros meios de renda pra tocar seus projetos com alguma segurança. Obter um pouco mais de retorno financeiro com as coisas que resolvo publicar, de momento, já seria muito bem-vindo, pois possibilitaria um número maior de publicações.

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Gibi Gibi: Vamos ver o que rola de retorno da segunda edição, temos muitas coisas em mente no que diz respeito a publicações, mesmo que sem pretensões, ir acrescentando na prateleira pra gente ter aquele orgulhinho.

Alex (Prego): Eu costumo dizer que a Prego é um projeto mutante. A publicação é o carro chefe mas ela se desmembra em várias atividades: Publicações, Vídeos, Serigrafia, Exposições, Eventos, Ilustração, Música, Ciclismo, Artes plásticas… A porra toda!

Stêvz (Beleléu): Todos acabam fazendo merchandising, produtos (camisetas, bonés, etc). Há também o lado artístico da ilustração, gravuras, pinturas, originais. Acho que é lógico que isso seja exposto e apreciado como arte em algum momento. Além disso, o audiovisual está bem próximo também. Já acontece com a TV Quase, o filme dos Palhaços Tristes, etc. Queremos fazer animações em breve.

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Cyn (Golden Shower): Olha, não sei pensar como movimento mais, ando meio afastada de todos os eventos, mas acho que as pessoas, além de talento, estão muito motivadas, fazendo coisas interessantes e, bom, acharia legal se esses sêlos crescessem e a gente tivesse aqui no Brasil editoras semelhantes à Nobrow e coisa do genero. Ah, ia pirar no irrealizável e dizer que gostaria que quadrinhos virassem o novo cinema e todo mundo ficasse milionário, mas enfim, sem derrotismo, pelo menos que quadrinhos entrem no nível da literatura, ahn?

Coutinho (Cachalote/Narval): Como disse, acho que as coisas mais simples precisam acontecer ainda, antes de entrarmos no mundo fantástico das publicações fora do padrão. Coisas como legalizar empresa, montar pequenas editoras com um consolidado grupo de revendedores, revendedores esses que compram e não consignam, divulgação e distribuição por região. Mais publicações também, mais gente lançando, mais eventos, isso tudo é muito importante. Mas há novidades interessantes, como os crowdfundings, web-histórias, assinatura (de projetos digitais), uma demanda maior de material virtual. E-books, e ainda acredito no retorno das revistas de quadrinhos no país, coisa que saiu de circulação há mais de 10 anos. Acho que isso tudo monta um bom cenário, se ampliado.

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REPERCUSSÕES DE ALGUN(S) TRABALHO(S)?

Stêvz (Beleléu): Alguns críticos já tuitaram sobre a gente.

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Alex (Prego): A Prego circulou em muitos lugares do mundo e assim fiz muitos contatos legais. Quando comecei a revista, eu mandava exemplares para alguns artistas que admiro e hoje esses caras tem um grande interesse e alguns deles até revendem a Prego, como é o caso do Fábio Zimbres. Isso pra mim é uma coisa muito boa, fico feliz de verdade em ver que tem gente que acredita na idéia da revista e faz questão de passar pra frente. Acho que a repercussão do trabalho maior foi que hoje conseguimos conquistar dois espaços físicos aqui na cidade para trabalhar e dar visibilidade ao que estamos fazendo. Fora isso, acredito que a Prego tem sido uma escola de vida em relação ao trabalho autônomo e as relações humanas (risos).

Coutinho (Cachalote/Narval): Não. Temos um monte de produtos relacionados ao Beijo Adolescente pra fazr agora, e terminada e impressa a série, vamos mandar pra todo mundo que colaborou. Acredite, já é bastante coisa.

Cyn (Golden Shower): Quando conheci o Gary Panter (muito brevemente) e lhe dei uma Golden Shower ele peguntou se eu não era amiga dele no facebook porque ele já tinha visto a revista antes. Não é lá uma re-per-cu-ssão, mas é o que me lembrei e foi super.

Gerlach (Vibe Tronxa): Nada em específico, mas quanto à recepção crítica dos meus lançamentos, não posso me queixar. Por conta da resposta majoritariamente positiva (e mais, pelo mero fato de pessoas terem gasto tempo dedicando algum tipo de pensamento crítico a esses lançamentos), tenho a impressão de que era algo necessário, uma decisão acertada ao menos do ponto de vista da fomentação da tal ‘cena’ e da minha satisfação pessoal como quadrinista.

DW (Roax): É legal ver a coisa surgindo pouco a pouco. Curto os comentários e a visão das pessoas que se dignam a comentar sem dó sobre o trabalho.

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Valente (Fabio Zines):

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*Quem bebe mais : uma das coisas mais legais dos últimos anos

QUAIS OS LANÇAMENTOS MAIS LEGAIS QUE FIZERAM, QUAIS OS ÚLTIMOS E OS PRÓXIMOS?

Alex (Prego): De 2007 pra cá, foi lançado: Revista Prego #1, #2, #3, #4, #5 e vamos lançar a #6 no próximo mês! Foi lançado na Feira Plana. E outros lançamentos paralelos, alguns em parceria com outros selos e autores: Ataque Fotocópia (Alex Vieira), Versão Alterada (Julio Tigre), Vulgar Manual e Quadro Negro Verde (Guido Imbroisi), Gente Feia na TV #1 (Chico Felix) e Ano do Bumerangue (Diego Gerlach). Nesse ano temos alguns lançamentos engatilhados tbm: Gente Feia na TV #2 (Chico Felix), Ejaculator (Lobo), Tiras de Merda (Vários autores), Os quadrinhos mais sujos da face da Terra (Cristiano Onofre)

Gibi Gibi: Estamos preparando uma baciada de coisas para 2013, o Luiz está editando a antologia Goró, vai ter uma história publicada na Suspect Device #3, na Tétanos, Lodaçal e Prego; o Heitor está esboçando uma história para a coleção ZUG da Balão Editorial, além de estar preparando material para outros zines ainda em processo de criação; O Mateus vai ter histórias publicadas na Stripburger, Samba #3 e está preparando algumas publicações coletivas e individuais, além de publicar a série regular PEZ, na revista Amarello. Em 2013 também vai rolar o lançamento do primeiro álbum do Mateus e Heitor, o Salalé.

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Stêvz (Beleléu): Em 2012 lançamos Se A Vida Fosse Como a Internet, Monstros e Calendário Pindura. Os dois últimos em dezembro, então vamos começar o ano divulgando os livros, lançando em outras cidades, e nos preparando para outras publicações e aventuras. Estou trabalhando no livro do Friquinique, e temos outros em vista para o primeiro semestre, mas isso dependerá de vários fatores. De qualquer forma, estamos aí, mais vivos do que nunca.

Tiago (Beleléu): Estou com meu caderno de viagens pela Itália no gatilho. Quero muito lançar pela Beleléu. Em breve.

DW (Roax): Bom, pelo selo só lancei o zine MAU na Feira Plana, tenho na fila um albinho que acho que vai chamar “Pornô”ou algo assim e depois uma revista “mensal” chamada “Fixação Por Insetos”.

Coutinho (Cachalote/Narval): Esse ano lançaremos um livro do Laerte, da “LOLA”, pra crianças. Temos a série do projeto MIL pra lançar em uma caixa com todos os 12 juntos, e queremos lançar o Gazzara em uma caixa também. Voltaremos com os produtos paralelos, canecas e camisetas, posters também, e temos planos pruma revista digital. Mas com calma.

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Gerlach (Vibe Tronxa): O primeiro lançamento foi meu gibi ‘Alvoroço’, com uma tiragem de 1000 cópias. Não sei dizer ainda qual vai ser o próximo, porque às vezes um projeto acaba se alongando mais do que o esperado antes de ser publicado (por N fatores…) e algum outro lançamento acaba furando a fila. Mas um lançamento no qual tenho trabalhado bastante leva o título provisório de ‘Vórtex’, uma história de horror que estou criando em parceria com Mateus Gandara. Gerlach lançou depois o zine Know-Haule e participou do lançamento coletivo Tiras de Merda, produzido durante a Gibicon em 2012. 

Cyn (Golden Shower): Todos os que eu ja fiz, no grande total de TRÊS! e Todos os que eu ainda vou fazer. Hehe.

Valente (Fabio Zines): 

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* Fabio Zines. 

* Vale a pena conferir também o projeto fotográfico NANKEEN do Rafael Roncato com quadrinistas diversos.

* Vale a pena seguir a Maria Nanquim.

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