Gerlach me convidou a tentar elaborar um raciocínio lógico e linear sobre o ofício de quadrinista aqui neste blog. Mesmo correndo o risco de falar demais, me contradizer, cair no ridículo ou simplesmente desperdiçar meu precioso tempo (e o seu), aí vai.

sobre produção, nível de obsessão, apego e refinamento de desenhos

Tenho pressa. Na função de editor, volta e meia me pego cobrando os colegas (e a mim mesmo) por agilidade e cumprimento de prazos, e aconselhando: “não precisa ser uma obra-prima, entrega logo essa porra”. E não precisa mesmo. Depois da obra-prima, tudo o que você fizer será pior. Não haverá como superá-la, prepare-se para anos de declínio pela frente.


fig.1   minha obra-prima
 
 

Há urgência, da minha parte, em explorar todos os caminhos, botar as idéias no mundo, jogar a merda no ventilador e partir pra outra. Já tive outros métodos de trabalho, mais obsessivos e meticulosos. Hoje me incomoda gastar tempo demais sobre um desenho só. E não confunda isso com desleixo. É, antes de tudo, a busca pela síntese: passar a mensagem. Trabalho com idéias. A imagem para mim, na maioria das vezes, é secundária, a não ser que a própria imagem seja a idéia em questão. Ela por ela mesma. Mas, geralmente, ao ter que elaborar uma imagem demais para poder passar a idéia, me pergunto se ela está clara, ou mesmo se é boa o suficiente. Entra aqui um ponto delicado, que é decidir o momento em que algo está “pronto”, saber largar mão e partir pra próxima. Tendo a elaborar a coisa em pensamento antes de partir para o fazer em si, o que nem sempre é o melhor caminho. Por vezes o próprio processo indica as soluções, mesmo que venham do erro. E o erro é uma das partes mais importantes do processo. A dúvida também. Acredito que a criação deva ser, antes de qualquer coisa, uma busca por satisfação pessoal. Mas a partir do momento em que se bota pra jogo, é preciso comunicar, ou não adianta choramingar se o trabalho for incompreendido (o que pode acontecer mesmo com uma obra-prima). Comecei a publicar em 2006, por conta própria. Desde esse primeiro projeto, buscava no experimentalismo uma solução gráfica para as idéias, aprendendo na tora, faça-você-mesmo total. Algo muito trabalhoso e elaboradamente artesanal ainda, apesar dos computadores, vejam bem. Mandamos a Bongolê para o Millôr. Ele respondeu, de próprio punho: “É preciso passar do barroco para o rococó, e daí para o simples. Assim como está, só eu te entendo” (embaixo, o desenho dos pés de um afoito afogado concluindo “dá pé”). É o que venho tentando alcançar desde então, a simplicidade.


fig.2   reciclagem de materiais
 
 

E a simplicidade, rapaz, exige paciência. Produtividade, fluxo de concretização de idéias. Fazer mais do que falar, criar algo ao invés de apenas sonhar (e pior, divulgar) projetos que nunca existirão. É aí o ponto em questão: o que vale é o resultado. Para o leitor pouco importam o processo e as dificuldades que o autor enfrentou para chegar àquela obra, pelo menos num primeiro momento. O que conta é a mensagem. Algumas idéias nos perseguem pela vida toda, cozinhando em banho-maria, lentamente tomando forma, e realmente requerem esse período de formação e elaboração. Esbarramos em outras pelo caminho, por vezes despretensiosas, mas que rendem frutos interessantes e inesperados. Algumas idéias necessitam de lapidação para fazer sentido, outras realmente não prestam pra nada, por mais que insistamos. Por isso, também, é não apenas válido, mas inevitável, soltar uns diamantes brutos pelo caminho. Ou seja: na dúvida, faça. E corra, sem olhar pra trás.

Anúncios