Na selva dos orçamentos, recentemente, me ocorreu o quanto estamos desamparados em termos de gráficas para autopublicação. Mais especificamente no campo das artes gráficas/visuais, em que a impressão por demanda ainda não dá conta do recado, o editor independente se vê obrigado, a cada novo projeto, a pechinchar em todas as esquinas para encontrar um preço razoável e adequado ao seu bolso, e sem mandar a qualidade da publicação às favas. Tudo isso, enquanto é tratado como um mongolóide amador (e ainda o somos!), sem um mínimo CNPJ nas mãos. Quando chega a hora da gráfica é que o parto realmente começa. E tudo ainda pode dar errado.

Lembro da minha primeira incursão pra valer no mundo das tintas e cilindros, pesquisando preços para imprimir o primeiro gibi. Eu e Gomez rodamos o setor de indústrias gráficas sem bússola, completamente desnorteados. Acabamos pagando dois-barão em cash, no primeiro lugar em que nos levaram a sério, para rodar a revista e torcendo pra tudo dar certo. Ingênuos, a ideia era imprimir em papel jornal. Se é vagabundo, claro que deve ser barato! Ledo engano, a tiragem mínima teria que ser absurdamente alta para nossos modestos planos de dominação mundial. De lá pra cá, fui obrigado – e me obriguei – a aprender mais sobre a produção gráfica em si: como funciona a quadricromia, como fechar um arquivo, o que pode dar certo ou não, etc. Mesmo assim, ainda não é o bastante. Sequer arranhei a superfície de possibilidades e fetiches gráficos, apesar de não cometer mais tantos erros grosseiros. Anos depois, o Bruno Azevêdo me pergunta sobre lugares para rodar um livro-de-contos-eróticos-para-senhoras-de-família em papel jornal e a minha resposta ainda é “não sei”. Matias, onde prensavam a Tarja Preta? Jornalecos de bairro, me passem o fornecedor!

O primeiro profissional do setor gráfico que perceber esse filão pulsante, de quadrinistas carentes com revistas embrionárias a tiracolo, e abocanhá-lo com fidelização, preços justos e qualidade, fará um negócio da China. Aliás, já pensamos em imprimir o Pindura na China, mas provou-se algo meio fora do nosso alcance. As grandes editoras estrangeiras rodam tudo por lá. Consta que o próprio Chris Ware precisou conferir in loco a prova de cor de Jimmy Corrigan. Nós, pés-de-chinelo, não temos tanta moral. A gráfica de Aparecida refilou metade dos livros errado. Eu tinha pago adiantado, achando que isso garantiria boa vontade e bom serviço por parte deles. Qual nada, ficou tudo por isso mesmo.

Existem, é fato, os obstinados e talentosos artistas da impressão artesanal, como Daniel Barbosa e seu Caderno Listrado, ou o prego Alex Vieira, e sua máquina de fotocópia (inveja), para citar alguns. Serigrafia, letterpress, gravura, o fato é que, por mais interessantes que sejam essas possibilidades, estão longe de suprir a demanda reprimida do quadrinista independente contemporâneo, da reprodutibilidade instantânea e feroz, do hi-fi analógico em celulose para as massas. É massa fazer um zine xerocado, costurado e de tiragem limitada, mas é trabalho demais para pouco resultado (leia-se $$$), sem falar nas óbvias limitações desse processo. Não me entendam mal, ainda acho que o futuro da publicação física passa por aí, pela personalização do objeto, pelo aspecto de raridade e cuidado afetivo dedicados a ele, mas, no estágio de curiosidade em que o nosso mercado se encontra (pronto, lá vem ele), isso não basta. Todos querem sentir o cheiro da tinta. E ainda tateamos nessa primeira barreira para a existência física da publicação.

Confesso que não tenho o menor talento (ou paciência) para lidar com gráficas no tête-a-tête, nas minúcias necessárias à confecção dos famigerados impressos. O autor independente hoje, além de editor, diagramador, gerente de vendas, contador, relações públicas, mídias sociais, carregador, office-boy e telefonista, deve ser o seu próprio produtor gráfico. E nesta divisão infinita de tarefas, seu poder de criação é diluído. Se não todas, pelo menos alguma das funções sofrerá nesse processo. É comum, em coletivos, ninguém querer ficar com a “parte chata”. Infelizmente, a parte chata é que leva a empreitada adiante. Inclusive à uma eventual profissionalização, de fato.

Ou não. Qualquer dia uma vaquinha dos independentes descola um riso-duplicador e aí já era. Lá fora, centenas de microeditoras autorais operam apenas com esse singelo maquinário, ainda salgado pro nosso bolso (cerca de dez a quinze mil pilas), fazendo livros lindos por conta própria. Outra esperança é descobrir uma impressão digital por demanda realmente decente e em conta, para lançarmos tiragens menores. Imprimir mil livros é fácil, mas onde é que você vai guardar todas aquelas caixas, campeão? Dividir a casa com o estoque não é tão divertido quanto parece.

Voltando à vaca fria: gráficas, se liguem! A cena está crescendo, estamos pagando para imprimir, e não vamos parar tão cedo.
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in: Manual do Quadrinista Independente Mirim – diversos autores, inédito.

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Mas sei lá, não acho que mereçamos tratamento especial ou peninha de ninguém. Grandes empresas também precisam pesquisar e batalhar orçamentos entre seus fornecedores. Taí o pulo do gato, ter alguns deles na manga, ter um relacionamento aberto e saudável com os fornecedores. De qualquer forma, talvez a onda seja mesmo investir em métodos alternativos de impressão, tiragens limitadíssimas, acabamento artesanal e poucos – porém fiéis – leitores.

pequena atualização: pouco depois de escrever este texto, topei com o Meli-Melo Press, de São Paulo, que imprime em Risograph. O próximo Gibi Gibi vai ser rodado por lá, mal posso esperar para ver. Mas não sei se isso seria uma luz no fim do túnel ou apenas um fetiche retrô. De qualquer forma, cada um dá seu jeito.

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