“Eu não sei desenhar” é uma das frases que eu mais ouço quando o assunto é quadrinhos. E eu sempre penso… então o que você diria ao ver os trabalhos do Paper Rad, do Daniel Johnston, do Gary Painter, do Fabio Zimbres, do Basquiat etc? (pesquisa aí os que você não conhece desses).

Para tentar expôr minha visão sobre essa questão, quero aqui destacar 3 experiências da história humana em relação ao desenho:

O REALISMO, o desenho como retrato da realidade (idéia que irritava profundamente Platão, a ponto de considerá-lo uma arte menor), que tem seu grande momento no RENASCIMENTO, período onde artistas, quase médicos, como Da Vinci entendiam o bastante de anatomia humana para estabelecer padrões de desenho muito realistas, somando isso ao estudo da perspectiva e da luz e sombra, tivemos a instituição do que eu chamo DESENHO OCIDENTAL, este estudo cresceu até chegarmos no séc XX ao hiper-realismo e foi uma das formas de desenho mais relacionadas aos quadrinhos graças ao desenho refinado de autores clássicos como Hal Foster.

O REPRESENTACIONISMO, o desenho como representação da realidade ou de algo mais subjetivo ou abstrato. Anterior ao realismo, já que até se estabelecerem padrões formais realistas, cada comunidade buscava estabelecer seus próprios padrões baseados em idealismos do que o desenho representava, por exemplo, os egípcios ao representarem-se sempre de lado, e outras comunidades que buscavam estabelecer um padrão único de desenho que devia ser repetido pelos próximos “artistas” a serviço desta comunidade. O lado oriental do planeta acabou mantendo esses padrões diferenciados, praticamente ignorando as descobertas ocidentais do “realismo” em busca de um estilo de desenho que representasse idéias através dos desenhos. Este mote foi explorado pelos impressionistas do começo do séc XX que buscavam novas formas de representar o que a máquina fotográfica (sic) não poderia representar, já que esta é capaz de obter o (sic) realismo máximo.

E no meio disso tudo quero encaixar também o NAIF, que é uma forma de arte associada a pessoas “que não sabem desenhar” citando aqui o Wikipedia: “As principais características da arte naïf (por exemplo, na pintura) são a forma desajeitada como se relacionam determinadas qualidades formais; dificuldades no desenho e no uso da perspectiva que resultam numa beleza desequilibrada mas, por vezes, bastante sugestiva; uso frequente de padrões, uso de cores primárias, sem grandes nuances; simplicidade no lugar da subtileza, etc. Por se referir à uma tendência estética e não particularmente a uma corrente de pensamento é recorrente a errônea classificação “naif” de artistas na realidade conscientes de sua produção formal que optam por uma figuração sem compromisso fotográfico com a realidade (como exemplo o pintor Henri Rousseau, exímio colorista, considerado diversas vezes um “ingênuo”). Tornou-se um estilo tão popular e reconhecível que já existem obras que podemos classificar como pseudo-naive.”

Assim, sendo eu uma pessoa que já estudou, inclusive na prática, estas 3 experiências ao ensinar quadrinhos ou desenho, trabalho com um método que chamo de PRIMITIVISMO, com o qual estimulo o aluno a trabalhar sua experiência pessoal sem medo, descobrindo na prática “como o mundo se encaixa nas suas habilidades” e não o contrário como vários cursos propõe. Ou seja, não buscamos atingir um resultado, MAS SIM descobrir até onde podemos chegar, buscando principalmente resultados que surpreendam. Ou seja, ao invés de transformar o aluno em um reflexo do que ele admira, buscar a originalidade bruta do seu trabalho, como um bebê que ainda terá muito tempo para crescer e se desenvolver. Aqui a inteligência e a expressividade é mais valorizada que a habilidade.

Falando dos QUADRINHOS AUTORAIS especificamente, o seu leitor está mais interessado é na sua VISÃO DE MUNDO, e se um traço mais simples (ou mesmo “torto”) for o melhor para o trabalho, por que não estudar as técnicas que vão colocar sua nova proposta no campo das coisas que estimulam os sentidos? E que maneira melhor de mostrar, entre aspas, sem compromisso como o mundo lhe parece?

E aliás, pensar que o desenho “malfeito” não exige um estudo profundo seria dizer que é fácil ser um Daniel Johnston ou um Fabio Zimbres (este último me afirmou nunca ter desenhado no modo ocidental, tendo dedicado toda sua experiência nesse caminho pseudo-naif, infantilizado, por assim dizer, um estudo aprofundado do “jeito errado” de desenhar).

Pra terminar gostaria de citar quantas vezes senti inveja (uma inveja do bem ok?) de alunos meus que “não sabiam desenhar” mas que ao desenhar um roteiro escrito por um profissional (uma das propostas no meu curso) resolviam as cenas de maneira extremamente expressiva e original, além de SIMPLES!

O que acontece com muitas pessoas que se dedicam ao desenho por muitos anos é criar uma espécie de vício dentro das linguagens conhecidas. Falo por experiência própria, quando você tem uma certa imagem que quer produzir, acaba buscando num banco de dados interno que lhe dará, mesmo que inconscientemente uma imagem pronta baseada em alguma que você já viu. O que torna a ele mais difícil descobrir formas novas de representar o que deseja transmitir ou mesmo de se permitir não saber o que quer transmitir. Descobrir este caminho de soltura cria uma espécie de espelho, no qual quer sentar e observar seu trabalho praticamente da mesma posição que seus leitores.

Estou certo em achar que isso pode ser mais fácil às pessoas que não “estudaram” o desenho através de métodos “issoéocerto-façaigual”?

O mesmo vale para a composição da história. Caso você siga o manual “Syd Field” do roteiro, ainda que sem querer, pode acabar preso na obviedade (apresentação do personagem/surgimento de problema/resolução do problema). Claro que alguns autores conseguem ainda usar esta forma mais usual de narrativa para criar trabalhos originais, mas o importante é que saiba que não é necessário, é somente uma ALTERNATIVA.

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