Os quadrinhos alternativos/autorais são uma vertente muito específica, pois se encaixam simultaneamente dentro de dois campos: ARTE e EDITORIAL.

Mas afinal, o mundo da arte e o mundo editorial são coisas distintas? Bem, grosso modo, a arte busca explorar o ‘novo’. Busca a experimentação, a surpresa, a incompletude, o sensorial, o subjetivo, o abstrato (mesmo dentro do figurativismo): uma busca incessante pela percepção e por algum deslumbramento. Não faz parte, em teoria (estamos falando aqui de um hipotético ponto de vista ‘universal’ e não relativo somente ao tempo em que vivemos), do mundo da arte a necessidade de vender ou ter aceitação das ‘massas’ já que seu objetivo é ser um desbravador de novas terras, que serão, provavelmente, mais aceitas com o passar dos anos.

A arte expõe, de maneira sutil e muitas vezes isoladas a ponto do seu  ‘uso/utilidade’ não ser claro ou parecer exageradamente simplista, a mesma coisa que (estamos aqui no hipotéticopontodevista mode, ok?) os cultos religiosos e a magia buscam: a transcendência através da narrativa, através da mitificação e através da aceitação de que existe poder em certos objetos sagrados, seja na religião ou na arte é a mesma coisa. (Pesquisar a questão da ‘aura’do objeto de arte, segundo Walter Benjamin.Pesquisar também a questão de que em tempos idos não existia diferença entre a questão ‘política’, ‘arte’ e ‘religião’. )

O mundo editorial, por sua vez, muitas vezes relativiza essas idéias (colocadas na arte de forma propositalmente ‘bruta’) dentro do seu já vasto histórico de experimentações bem-sucedidas, sempre buscando criar um ‘uso’ numa relação clara com o público de comunicação. (aqui fica o exemplo deste sucesso de vendas). Idéias tornam-se signos, ao menos, relativamente reconhecíveis, mesmo que por vezes, multinterpretáveis. Neste caso existe uma necessidade implícita de ‘saída’do material, de algum tipo de retorno (usualmente financeiro). Ou seja,o que difere em seus preceitos básicos é que publicacões são feitas PARA serem reproduzidas e vendidas ao passo que a arte não necessariamente.

E se você achar que eu estou errado, vou me defender dizendo que isso é também um reflexo dos nossos tempos. É só você pensar um pouco fora do tabuleiro e imaginar como nossa existência será vista daqui a 100 anos. (se ainda existir planeta ou/e se ainda estivermos aqui, rs.) Claro, a arte é um produto cultural, mas sua essência transcende o sistema social.

Voltando: MAS, claro, não se deve achar na prática que toda arte é feita sem objetivos comerciais ou que todo produto editorial não traz nenhuma experimentação artística ou que tem somente objetivos de agradar nichos já institucionalizados.

E aí na questão dos QUADRINHOS ALTERNATIVOS nós temos as idéias do tio Walter Benjamin vistas na prática. Uma questão apontada, na minha opinião, erroneamente para a gravura, que mantém a ‘aura’de objeto único já que mantém a idéia de ‘ser para poucos’ e continua limitada a ambientes relacionados à prática/estudo/exposição de arte. Ou seja, NÃO CAI NO MUNDO, TRU!

Já a produção editorial funciona como um pequeno tesouro que pode ser encontrado, desde num banco  na praia até num moleque vendendo seus fanzininhos em alguma rua de alguma balada estranha. Ou seja, o editorial tem chance de atingir um público não-viciado, capaz de olhar a arte com olhos que não esperam a ‘roupa nova do rei’ (prática comum no mundo da arte). Será que temos aí a chance real da inclusão artística no “mundo real”? Que seria, muito provavelmente sem querer, uma das propostas da CONTRACULTURA, mas bem… isso é outro tópico.

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