“Histórias em quadrinhos são a fantasmagórica fascinação daquelas pessoas de papel, paralisadas no tempo, marionetes sem cordões, imóveis, incapazes de serem transpostas para os filmes, cujo encanto está no ritmo e dinamismo. É um meio radicalmente diferente de agradar os olhos, um modo único de expressão.” – Federico Fellini

 “As comics readers gazing down from a higher dimension perpendicular to the page surface, we can actually peer inside characters’ toughts with balloons or captions that provide running commentary. We can stop on page 12 and look back to page 5 to check a story point we missed. The characters themselves continue to act out their own dramas in the same linear sequence, oblivious to our shifting perspective.” – Grant Morrison 

 

O universo ficcional, em qualquer que seja a mídia, não é nunca capaz de apresentar um retrato fiel da realidade. Os discursos de uma personagem, assim como toda a profundidade que a mesma tenha a capacidade de expressar através de quadros de texto ou diálogos não representam a totalidade de um ser humano sofrendo de pressões, intenções e idiossincracias do mundo comum.

Isto, no entanto, não impede a nós, como espectadores de ficção, de nos identificarmos com este ou aquele personagem. Muito pelo contrário, há até uma gama de leitores que certamente, entre este nosso mundo cinzento e pouco afeito a aventuras e aquele, colorido e pleno de possibilidades, se tivessem de escolher, não pensariam duas vezes em dar adeus para as contas e se imiscuir a um plano de existência onde vôos, amores e tesouros se apresentam em cada esquina. A possibilidade do sucesso é quase capaz de nublar os perigos que a vida ficcional apresenta como leitmotiv para que as aventuras não cessem.

O que me leva ao tema deste que se pretende um breve artigo: a imutabilidade da personagem de ficção dentro do gênero dos quadrinhos.

De forma simplista, num primeiro momento, explico esta dita imutabilidade com exemplos óbvios, oriundos de personagens que se tornaram

marcas e que por isso mesmo são impedidos de evoluír, em qualquer sentido que for, correndo o risco de perder os lucros certos que são capazes de gerar. Depois, correndo o risco de errar feio em meu julgamento, o conceito será também brevemente explanado quanto às publicações autorais.

No primeiro caso, é claro, os exemplos não fogem do comum e posso citar personagens em que as mudanças, de fato, nunca ocorrem. Mickey, Pato Donald e Tio Patinhas, com certeza nunca sentiram o peso do tempo, tornando-se, alias, cada vez mais interessantes, ágeis e capazes de provocar um polpudo retorno financeiro a empresa que os representa. O mesmo com personagens como o Batman ou a nossa tão brasileira (agora, quase sino-japonesa) Mônica.

Esta última, ainda que tenha assumido características adolescentes em uma recente encarnação, carrega uma gama de elementos reconhecíveis que aos olhos do leitor das antigas não perde a familiaridade. O mesmo com o Batman ou qualquer outro super-herói que nas últimas décadas tenham se ocupado de espancar bandidos e salvar o mundo em detrimento de suas vidas pessoais.

 

Estes personagens, servindo a fome editorial de renovação de estoque, são efetivamente incapazes de acumular experiências ou se modificarem. Mesmo que cronologias internas sejam estabelecidas dentro dos limites do mundo desses personagens, ainda assim o Tex continuará a ser um bravo cowboy cavalgando em direção ao horizonte no final de cada aventura, assim como o Batman jamais irá cessar sua longa batalha contra a injustiça, Asterix e Obélix contra a fome e a Mônica contra as investidas do Cebolinha para dar nós nas orelhas de seu bichinho de pelúcia (algo que, embora sempre soubéssemos, finalmente foi explicitado como um jogo de gêneros e interesses sexuais na versão juvenil da criação de Maurício de Souza).

No outro caso averiguado por essa não tão organizada investigação, encontramos o extremo da criação quadrinhística que são as ditas histórias autorais.

Tomar parte do texto explanando o que seriam quadrinhos autorais me parece perda de tempo, visto que o DW, neste texto, já deu o serviço de forma muito mais clara do que, está óbvio, eu conseguiria. Talvez, um adendo particular meu seja o de que mesmo no mainstream pode-se encontrar trabalhos fortemente autorais, como as histórias pés-no-chão da dupla de verdinhos, Arqueiro e Lanterna, pelas mãos dos mestres Dennis O’Neil e Neal Adams, na década de 70 e o estranhíssimo X-Statix de Peter Milligan e Mike Allred, neste apresentando um diálogo explosivo e pós-moderno com a cultura pop, e naquele uma linha de argumentos que levaram os quadrinhos de super-heróis à uma aproximação social e crítica que até hoje é difícil de se encontrar no gênero.

 

 

Mas o tema desse artigo são as personagens e como, segundo o meu turvo julgamento, essas peças de xadrez com as quais os autores beligerantemente brincam e que servem de elemento de identificação para o leitor, são incapazes da mudança na grande maioria dos casos. Mesmo nas histórias que apresentam as assim chamadas “histórias de formação”, este elemento, a personagem, ainda que observada ao longo de mais de seiscentas páginas do parto ao dia da sua morte continuará incapaz da mudança.

Primeiro porque “o conhecimento dos seres é fragmentário” e “esta impressão se acentua quando investigamos os, por assim dizer, fragmentos de ser, que nos são dados por uma conversa, um ato, uma seqüência de atos, uma afirmação, uma informação. Cada um desses fragmentos, mesmo considerado um todo, uma unidade total, não é uno, nem contínuo. Ele permite um conhecimento mais ou menos adequado ao estabelecimento da nossa conduta, com base num juízo sobre o outro ser; permite, mesmo, uma noção conjunta e coerente deste ser; mas essa noção é oscilante, aproximativa, descontínua.”

Bem, o parágrafo anterior é quase que inteiramente uma citação do professor Antonio Candido a respeito da personagem do romance, em texto presente no primeiro voluma da coleção Debates, da Editora Perspectiva. E ainda que ele não esteja falando sobre o personagem nas mesmas condições que eu, isto é, a respeito de seu caráter imutável, me aproprio deslavadamente do discurso e disseco-o, de acordo com minha interpretação.

Para isto, cito como exemplo três quadrinhos que, embora distribuídos em grande escala e produzidos por grandes nomes do circuito, parecem-me imbuídos de todas as características necessárias para serem consideradas obras autorais. São eles A Small Killing, de Alan Moore e Oscar Zarate, Asterios Polyp, de David Mazuchelli, e Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá.

Em breve análise comparativa, podemos encontrar nas três histórias elementos comuns a seus protagonistas: a re-avaliação de suas vidas como mote para a narrativa, um círculo de coadjuvantes que a vida foi capaz de afastar, perder ou mesmo mudar e a constante busca por uma redenção, que tanto pode surgir na forma de uma conversa há muito ansiada, ainda que frustrante, como num significativo re-encontro. Em suas buscas as personagens principais dessas histórias refazem passos mitológicos (onde a re-avaliação não significa necessariamente uma mudança), em que revivem suas próprias e significativas experiências, tais como o nascimento. Uma viagem de LSD em tamanho família, onde tudo se assemelha a uma bad trip, e de onde não se pode sair incólume no final.

Joseph Campbell diz que no que tange ao caminho dos heróis “tudo gira em torno de provações e revelações”, mas e quando, como nesses casos, a revelação é o honesto descortinar de momentos embaraçosos e de comportamento moral abominável? Pois se o único momento em que o Brás de Bá e Moon se apresenta como um cretino é quando tem de encarar uma semi-desconhecida meia-irmã no dia do nascimento de seu filho/morte de seu pai, no caso dos protagonistas de Asterios Polyp e A Small Killing a situação é um tanto pior, pois, mais verossímeis, eles tiveram, cada um, uma vida inteira de situações onde agiram de forma insensível e ingrata. E ao final dessas aventuras, no breve fôlego que a vida literária nos apresenta com a sinuosidade de um ilusório “fim” na última página, o momento permanece em suspenso, como se a vida abrisse novos caminhos para esses recém-modificados homens, enfim capazes de perdoar a si mesmos.

Mas isso não lhes garante a mudança. Pelo contrário, estabelece-os rígidos, fixos e engessados tanto na estrutura física do material quanto na lógica circular a que a maioria das narrativas se prende – o que me leva neste texto a propor um novo caminho, aberto a conjecturas e explorações de possibilidades narrativas que não se vinculem apenas ao formato físico comumente associado aos quadrinhos, que mesmo em narrativas online tendem a fossilizar a história contada em prol de caminhos e rumos que seguem apenas adiante, euclidianamente adiante.

Basicamente, se a estrutura é mutante o personagem também pode ser, por ser capaz de fugir do roteiro básico de leitura que prenda a leitura da página 33 à subseqüente 34 e a anterior 32.

E surge a questão: o modelo de narrativa não-linear seria capaz de atrair novos leitores? Creio que sim, desde que esses leitores sejam movidos pela curiosidade intelectual e não por integrarem um grupo de leitores formados com a lógica narrativa aristotélica comum, que também não se perde, e talvez não perca nunca seu espaço, mas que inegavelmente podem oferecer mais, exigir mais e, por que não, inspirar mais.

Anúncios