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Um exemplo: Uma canção pop comum com quatro acordes, compasso 4×4. Guitarra, baixo, bateria e ali no fundo um teclado.

Este toca apenas uma nota contínua, não produz ritmo, melodia, nem dinâmica. Estas questões são trazidas pelos outros instrumentos, o contexto que acaba criando a ilusão de dinâmica ao som do teclado.

Este som pode ser descrito como uma linha, a cor varia dependendo da nota que está sendo tocada, é como se este som passasse por trás dos outros instrumentos que, se imaginados graficamente, produzem linhas mais complexas, formam ondas e triângulos de alturas, dimensões e direções diversas. O teclado cria uma espécie de detalhe, que não faz total diferença, mas que fica bacana ali naquele contexto musical, deixa a música “mais gorda”e preenchida. Seu papel nesta canção hipotética é completamente diferente de (imaginemos) uma outra, onde temos somente este som de linha, bem mais alto com acompanhamento de outros teclados, fazendo também variações lentas, com poucas notas e sem compasso definido. Temos uma diferente experienciação, mesmo utilizando o mesmo elemento. Temos uma música composta com linhas.

Ouve-se muito, no mundo “real”, que ARTE CONCEITUAL é inútil, um embuste criado por pessoas ricas para ter o que fazer quando não são hábeis pra tocar a multinacional do pai ou para alisar seus egos, já que nunca fizeram o esforço necessário para aprender a desenhar, pintar ou esculpir. Se existe uma parcela que faz exatamente isso? Já perdi muito tempo da vida me preocupando com o que é verdadeiro ou falso. Xingando, porque um rico já ganha tudo fácil e não tem a vivência de ‘se foder’ pra poder criar uma obra de arte digna. (sic) A verdade é que me forcei a mudar, porque percebi que a idéia de arte, pra mim, estava perdendo (demais) a pureza e que se continuasse nesse caminho, cedo ou tarde eu largaria tudo pra estudar Administração. Ganhar dinheiro com arte nunca poderia ser o maior objetivo da vida. Mas qual seria então? Juntar dinheiro e poder fugir nas férias e comer comidas caras e receber massagem num hotel na praia? Talvez a maior parte das pessoas possam acabar me vendo como romântico demais, ou esotérico, algo do tipo. O lance é que vejo a arte como uma representação espiritual, muito mais pura, na minha opinião, que a religião, a qual, penso eu inclusive, que por causa dos dogmas e rituais serviu para que perdêssemos a real noção do que é a espiritualidade que está contida na poesia.

Mas peraí, que papo bicho grilo é esse de poesia e onde você quer chegar a partir do que foi dito lá em cima, de teclado e etc? Enfim, vou explicar o que é a poesia na minha visão, deixando claro que a própria busca por uma acepção é praticamente uma metalinguagem de que o que não pode ser explicado racionalmente só pode ser percebido através dela, da poesia, de uma maneira menos inteligível, vamos fazer uma analogia com o sexo e o amor: quanto menos você tentar explicar, mais bonito será.

Sendo assim, tendo minha vivências e opiniões e sentindo vontade de expressá-las, só obterei sucesso NA ARTE se trabalhar minha mente de modo que eu consiga escrever, desenhar algo que soe um pouco (ou muito) abstrato, que desafie minha mente e a do leitor/espectador. Se eu gosto de amarelo e faço um quadrinhos “viva o amarelo, amarelo é a cor mais linda, o verde é feio, fora verde” estou sendo altamente didático e a não ser que esse quadrinhos se direcione pra retardados ou crianças muito pequenas, cuja mente começou a fazer relações agora, será uma obra de arte inútil. Estou sendo propositadamente categórico, porque creio que mesmo nas obras onde o sentido se faz claro ou/e político, pode existir esse afastamento poético, o que inunda a obra de energia vital, a faz viva além da sua causa (neste caso Guernica ganha milhares de outros sentidos além da crítica). É isso que faz a poesia, descrever o que não pode ser descrito através, não de um caminho iluminado, e sim através do escuro e da iluminação interna. Gerlach, quando o conheci comparou minha hq DOIS com algum aspecto dos KOANS. Segue a descrição do Wikipedia: Um koan é uma narrativa, diálogo, questão ou afirmação no budismo zen que contém aspectos que são inacessíveis à razão Desta forma, o koan tem, como objetivo, propiciar a iluminação espiritual do praticante através da interrupção do seu fluxo de pensamentos. Um koan famoso é: “Batendo as duas mãos uma na outra, temos um som; qual é o som de uma mão somente?” (tradição oral, atribuída a Hakuin Ekaku, 1686-1769).

 Ok, Espero que essa noção nublada tenha iluminado sua mente para voltarmos à idéia do teclado e da arte conceitual. O que escrevo a seguir, nada mais é, que minha noção pessoal também, a partir de vivência e leituras e experiências e discussões, do que é a arte conceitual. Se você é um açademicista que precisa que eu justifique com referências claras de outros autores mais inteligentes, talvez mais claros (talvez exatamente o oposto) que eu, deixe pra lá. Sou apenas um ser vivo matutando aqui, não um político ou cientista.

A arte sempre foi um mistério para o ser humano: por que fazemos? Por que apreciamos? Pra que serve? O que tiramos disso? Fato é que a maioria do seres humanos tem um apreço indelével pela arte figurativa, especialmente a figura humana. Se for altamente realista será admirada pelo labor de ser produzida, se for mais estilizada (pense talvez num grafite) será admirada pelo estilo próprio DESDE QUE retrate um rosto. Pode ter manchas, pode ter abstrações, mas embaixo disso, É BOM que tenha um rosto. Identificação? Sei lá, qual o motivo que tem nossa percepção pra isso? Algo “útil” ou só nosso ego em formato de inconsciente coletivo gritando? Não adianta chutar, essa é uma boa pra cientistas tentarem responder.

Fato é que todo desenho é criado a partir de elementos básicos: ponto (ou mancha) que vira linha (ou forma) e que se combina com outros elementos pra criar “algo”. Signos dotados de significação são avaliados a partir de crenças. Dito isso aparentemente, cada vez mais, ironia tem sido entendida como discurso. Zeitgeist?

A arte conceitual, como a conhecemos (porque se analisarmos, sempre esteve aí), começou lá com o cachimbo do Magritte, com a privada do Duchamp a nos falar do mundo microscópico que se esconde atrás da nossa impressão das coisas. que está sempre contaminada pela cultura, opinião e percepção (se é que essa última não é simplesmente a mistura dessas duas coisas).

Malevich-AC

Eu tive que fazer um esforço no começo pra compreender qual o “uso” de um quadrado preto do Malevich. Hoje em dia é muito claro, e ao mesmo tempo difícil de explicar. Uma idéia mínima das coisas, sem culpa e sem motivo claro. Como olhar para algo que está no mundo e que acostumamos a achar normal, pense na loucura que é a existência das árvores… dos insetos… o céu sobre tudo, o jeito que o mundo se “organizou” em sua história. Existe um erro grosseiro em pensar que essas modalidades mais abstrativas da arte vieram para “tomar o lugar” da arte figurativa.

Basta dizer que os teclados tocando uma nota tem uma importância muito maior pra mim hoje em dia. Não atrás da banda, somente, lavando a louça. Mas como chefe em um jantar minimalista, onde o prato principal só será entendido se houver um esforço em concentrar a percepção do meu paladar e se eu não jogar ketchup e mostarda por cima de tudo.

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