Diversas vezes ao ser questionado o que faço me vejo numa constrangedora situação de explicar (nunca de forma direta) que faço histórias em quadrinhos. Daí tento ajeitar explicando “quadrinhos para adultos”, MAS ainda assim não consigo fugir da tal situação constrangedora, pois estas duas palavras estão profundamente contaminadas por pré-conceitos. Quando se fala em “quadrinhos” a maioria das pessoas vai pensar naquela idéia pré-formatada: histórias simplórias e essencialmente naturalistas de personagens bidimensionais vivendo aventuras seriadas (inventei isso agora, mas me parece que cabe tanto aos gêneros de super heróis e ficção científica quanto à maior parte do material infanto-juvenil) e fica pior quando se usa o termo “adulto”, que em em geral leva as pessoas a pensar em erotismo ou pornografia. E  ou seja, raramente os quadrinhos são pensados primeiramente como uma forma de ARTE, de possibilidades tão vastas quanto qualquer outro tipo. O que ME leva a pensar o quão pouco conhecidos são estes novos movimentos, especialmente no Brasil.

Nesta postagem vou dar minha visão da diferença entre os termos acima. (parte desse texto foi baseado neste).

 

QUADRINHOS ALTERNATIVOS: Gênero difundido principalmente nos anos 80 e 90, que abrange diversos gêneros, estilos e assuntos. É em geral o produto de um único criador/autor que trabalha suas próprias idiossincrasias. Em geral estas publicações, por terem viés artístico e experimental, não são produzidas e distribuídas dentro do mesmo sistema de outros gêneros de quadrinhos como Super-heróis, mangás e quadrinhos infanto-juvenis.Enquanto o quadrinho mainstream visa maximizar as vendas, o quadrinho alternativo é um trabalho mais sensível e é publicado em menor quantidade para um público mais seleto. Isso porque eles tratam muitas vezes de assuntos obscuros, ofensivos a alguns, subjetivos, etc e muitas vezes com linguagem/forma experimental, nem sempre facilmente absorvida. No Brasil é quase sempre publicado em forma de álbuns com histórias fechadas. Alguns quadrinistas alternativos que podem lhe interessar: Daniel Clowes, Charles Burns, Chris Ware, Debbie Drechsler, Rafael Coutinho, etc

QUADRINHOS UNDERGROUND: O começo dos quadrinhos alternativos: autores ligados às revoluções sociais jovens dos anos 60 e 70, ao uso de drogas, ao rock e ao amor livre. Assim como o mote do movimento punk ‘faça-você-mesmo’, produziam material com editoração e impressão simples e sujos. Muitas vezes violando direitos autorais, criticando duramente a sociedade padrão e buscando desafiar o leitor colocando imagens e temas pesados. Quadrinistas pioneiros: Robert Crumb, Art Spiegelman, Gilbert Shelton. (No Brasil com certo delay: Laerte, Angeli, Glauco)

NOVELA GRÁFICA (GRAPHIC NOVEL)/ QUADRINHOS AUTORAIS: Termo cunhado por Will Eisner, inspirado pelo trabalho de Crumb e Harvey Pekar, para designar quadrinhos adultos, equivalentes a filmes de arte e literatura. Mas que, apesar de ter a linguagem específica dos quadrinhos como diferencial, em geral busca um formato naturalista, por vezes biográfico e/ou jornalístico. Exemplos: Will Eisner, Dash Shaw, Craig Thompson, Caeto, etc

QUADRINHOS INDEPENDENTES/FANZINES: Publicações feitas e distribuídas/vendidas pelo(s) próprio(s) autore(s), em geral com fotocópias e papel simples ou com uma pesquisa própria de materiais, uso de meios alternativos como serigrafia, de baixa tiragem. A idéia surgiu junto ao movimento punk, que produzia jornalismo paralelo e despretensioso com edição não-profissional e se expandiu. Ver: Raw, Weirdo, Chiclete com Banana, revista Animal, Edições Tonto, Candyland, etc

QUADRINHOS ARTÍSTICOS: Quadrinhos ou ilustrações que remetem às idéias das artes plásticas. Pesquisar: Histórias em quadrinhos de Picasso, quadrinhos abstratos, etc.

QUADRINHOS DE VANGUARDA*: Quadrinho difundido principalmente neste começo de séc XXI e que busca trabalhar quadrinhos como uma linguagem muito específica, trabalha a abstração da linguagem e a meta linguagem, é por vezes um falso naif e valoriza a estética de um ponto de vista da exploração de possibilidades, ou seja, nem tudo é legível ou tem relação com a construção da linguagem ocidental, construída por milênios, abre mão disso em busca do subjetivo, do intuitivo e arrisco dizer, da metafísica. Existe uma noção ética envolvida. Ver: Gary Paint, Jaca, Zimbres, CF, Paper Rad, Kramers Ergot, etc.

* Agradecimentos ao quadrinista Diego Gerlach pelas discussões a respeito.

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